Eleição de 2026 reabre a veia progressista da origem de MS
O conceito de conservador carimbado na testa do eleitor sul-mato-grossense é duvidoso e profundamente contraditório quando se confronta o perfil dos candidatos de 2026 com o DNA dos políticos que tiveram papel decisivo na criação e construção de Mato Grosso do Sul.
Dos 419 candidatos com registros na Justiça Eleitoral, apenas 0,72% carregam no sangue a herança política direta daquela geração Fábio Trad (PT) e João Henrique Catan (Novo) são filho e neto, respectivamente, de Nelson Trad e do ex-governador Marcelo Miranda e disputam o governo do Estado.
O deputado estadual Pedro Pedrossian Neto (Republicanos), candidato à reeleição à Assembleia Legislativa, descende de Pedro Pedrossian, último governador eleito diretamente ainda no uno Mato Grosso na ditadura, principal personagens da formação política de Mato Grosso do Sul e pivô de uma crise que levou a ditadura militar, ainda em pleno vigor, a nomear três governadores em apenas 22 meses de existência do Estado.
O terceiro deles foi o próprio Pedrossian, empossado em novembro de 1980 depois de derrubar seu antigo apadrinhado, Marcelo Miranda, que havia substituído o homem de confiança do general João Figueiredo, Harry Amorim Costa.
Foram tempos de muita crise e uma certa rebeldia.
A palavra pode parecer estranha quando aplicada à política de um Estado hoje identificado com o agronegócio, a direita e, nos últimos anos, com a forte penetração do bolsonarismo.
Mas é aí que a genealogia dos candidatos de 2026 ganha significado.
Para o cientista político Filipe Wisley Matos Rosa, da UFMS, a elite política que esteve na origem da divisão de Mato Grosso não pode ser automaticamente enquadrada no campo conservador.
Ele identifica nela características progressistas e vanguardistas, numa época em que o país ainda estava submetido a uma ditadura militar e a oposição política era limitada pela força do regime.
A cria contra o criador A criação de Mato Grosso do Sul, em 1977, foi uma decisão da ditadura do general Ernesto Geisel.
Mas Brasília não eliminou as disputas políticas existentes no Sul de Mato Grosso nem transformou automaticamente os grupos que defendiam a divisão em aliados dóceis do regime.
O novo Estado nasceu, portanto, de uma contradição: foi criado por uma ditadura, mas sua elite política tinha interesses, projetos e disputas que não se resumiam à visão dos militares.
Na primeira eleição direta para governador, em 1982, o eleito, Wilson Barbosa Martins, do MDB, era opositor de consistência ao regime militar.
Se nasceu pelas mãos de um regime que perseguia opositores, a primeira escolha direta de Mato Grosso do Sul foi contra ele.
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