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Abel pode ser chato, mas o que ele diz deveria nos fazer pensar

UOL Esporte ·
Abel pode ser chato, mas o que ele diz deveria nos fazer pensar

Abel Ferreira disse que o futebol está doente. O treinador palmeirense explicou que sua avaliação se deve ao fato de só darmos valor a quem ganha: "se não ganha, não presta", disse. Em seguida, responsabilizou todos os atores do jogo pela doença: dirigentes, treinadores, torcedores, jogadores.

Abel tem razão, mas só conseguiremos entender a doença e seus sintomas se olharmos para a causa.

Vivemos dentro de uma sociedade a cada dia mais treinada para escolher alguém para odiar. A doutrinação do ódio é importante porque atua na preservação dos mesmos de sempre em situação de poder. Ganhar é a única saída; qualquer outra alternativa dará a você o rótulo de perdedor. Ou de " loser ", nos termos técnicos internacionalizados pelo capitalismo.

É de fundamental importância que nos dividamos aqui nesse chão de fábrica da vida para que o poder se mantenha intacto. Sem divisão, reinar fica mais difícil.

Vejam o debate dessa semana, que é exemplar: Mulheres trans e o esporte de alto rendimento.

Temos uma atleta profissional que é uma pessoa trans, uma entre milhares de atletas profissionais, e estamos nos digladiando para debater com todo o ódio do mundo o tema "mulheres trans no esporte". Trata-se de um debate que só importa aos gestores de sempre. Enquanto nos estapeamos pelo certo e pelo errado sem que haja base científica sólida sobre a qual nos debruçarmos - e, portanto, o debate se dá no terreno da moralidade, onde todos se afogam - os mesmos de sempre reinam em paz e soberanos acumulando suas riquezas.

Esse é um sistema econômico erguido sobre a racialização de corpos, sobre o trabalho invisível executado por mulheres dentro dos lares, sobre a precarização de vidas consideradas supérfulas. Não haveria acumulo de riqueza se não fosse essa divisão. A ideia de que só é importante quem vence alimenta esse sistema. Não olhamos mais para um jogo bem jogado, para um jogo disputado com o coração, para a beleza que o jogo oferece mesmo dentro de algumas derrotas. Só o placar importa.

O trabalho de Abel é exemplar no Palmeiras. Há dias bons, dias ruins. Há anos melhores e outros piores. Mas seria preciso compreender que ele está deixando um legado inédito: ensinando o palmeirense e a palmeirense a torcer.

O time segue se popularizando, o elenco é o mais unido do Brasil, a torcida está mudando seu comportamento bem diante de nossos olhos, o Palmeiras disputa tudo da forma mais competitiva há seis anos. Não basta? Não. Não basta. Precisamos rotularmo-nos como vencedores e perdedores de formas definitivas a cada nova rodada. Entregues a análises sempre muito numéricas, cheias de métricas, que só valem para aquele momento porque, como diz meu amigo Marcelo Mendez, os números dançam. Os números sempre dançam.

Deixamos de escutar a música do jogo para nos fixarmos em sua ilusória e tediosa métrica. Estamos todos doentes e dentro de uma sociedade colapsada só ganha quem vende o remédio.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Esporte.

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