Na ONU, Lula recupera o controle da agenda
Faltando menos de duas semanas para o primeiro turno das eleições presidenciais, o presidente Lula (PT) discursou hoje (22) na Assembleia Geral da ONU com uma fala que foi da crise generalizada do multilateralismo ao combate ao crime organizado. Sem citar diretamente Donald Trump, afirmou que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém", criticou a ingerência externa em eleições e disse que o país não precisa de porta-aviões estrangeiros vigiando suas águas. O discurso veio um dia depois da pesquisa Palver mostrar Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente no segundo turno, por 47% a 43%. Nos grupos de mensageria, a agenda internacional serviu para que houvesse uma mudança de pauta, que estava direcionada para a crise do STF.
A pauta internacional é importante para Lula, principalmente através da lente da soberania e enfrentamento a uma intervenção estrangeira dos Estados Unidos. Na pesquisa Palver, publicada ontem (21), 49% dos entrevistados se mostraram contrários a um alinhamento da política externa com os Estados Unidos, enquanto 40% se mostraram favoráveis. O dado é interessante, pois revela espaço para que Lula, como incumbente, e portanto capaz de decidir sobre a política externa, marque sua posição na tentativa de converter um percentual dos votos indecisos.
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Pouco antes do discurso na Assembleia Geral, mensagens de "missão" convocavam a militância a acompanhar a transmissão e espalhar as melhores falas, lembrando que faltavam "12 dias pra votar 13". A narrativa dominante, em cerca de metade das mensagens favoráveis, foi a da soberania. A frase do quintal ressoou de maneira forte nos grupos e foi bastante utilizada pelos apoiadores, lida como recado direto a Trump. A ausência de aplausos da delegação americana no final do discurso, circulou como prova de que o alvo foi atingido.
Uma segunda linha narrativa buscou explorar o prestígio internacional por conta das agendas que o presidente realizou em Nova York, tanto com o prefeito da cidade, Zohran Mamdani, que chamou Lula de "inspiração", como com o democrata Bernie Sanders, que expressou apoio à soberania do Brasil.
Do lado bolsonarista, as críticas se concentraram antes do discurso, quando chegaram a 30,2% das mensagens que expressaram opinião sobre o tema. O ângulo que procuraram explorar foi o de gasto público excessivo com a ampla comitiva que acompanhou Lula aos Estados Unidos, fazendo uso do bordão "quem paga a conta é o trabalhador". Também exploraram a ausência de uma reunião bilateral com Trump, lida como sinal de um presidente "isolado". Já a reunião com Mamdani, apresentado como prefeito "muçulmano" e comunista, e a retirada da candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral da ONU, tratada como derrota diplomática, reforçaram o coro na construção de uma narrativa de que o presidente enfrenta sucessivas derrotas no âmbito internacional.
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