Série sobre Belchior refaz o percurso angustiado e enigmático do artista em roteiro que se alimenta dos silêncios
O ator Luiz Carlos Vasconcelos interpreta Belchior (1946 – 2017) na série 'Alucinação', na fase em que o cantor viveu sumido entre o Uruguai e o Sul do Brasil Reprodução / Vídeo ♫ CRÍTICA DE SÉRIE Título: Alucinação Direção: Eduardo Albergaria Roteiro: Daniel Dias e Eduardo Albergaria Cotação: ★ ★ ★ ♬ Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017) morreu há nove anos como esfinge que ninguém conseguiu entender.
As maiores pistas para decifrar o enigma estão no cancioneiro angustiado legado pelo cantor, compositor e músico cearense.
São composições de letras poéticas que expuseram o peso da cabeça de um artista que pareceu ter almejado um lugar sagrado através da música.
Série que estreia no Canal Brasil dois meses antes do 80º aniversário do artista, “Alucinação” investe nessa tese ao mostrar os anseios, lacunas e tormentos da vida de Belchior enquanto refaz, em quatro episódios, parte do percurso acidentado de um artista de temperamento introspectivo, por vezes nublado.
Com pouca ação, o roteiro construído por Daniel Dias com Eduardo Albergaria – diretor dessa série cujos quatro episódios serão exibidos semanalmente aos sábados pelo Canal Brasil (o primeiro foi ao ar em 29 de agosto) – vai na contramão da adrenalina e da tensão dos produtos audiovisuais, investindo em tempos lentos em que imperam olhares e silêncios tradutores dos estados d'alma das personagens.
A base do roteiro é a biografia “Belchior – Apenas um rapaz latino-americano” (2017), escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros e publicada quatro meses após a morte do cantor, interpretado na série pelos atores Caian Zattar (na juventude nos anos 1960 e ao longo da áurea década de 1970), Luiz Carlos Vasconcelos (nos últimos dez anos de vida do artista) e Márcio Levi (na infância, aos dez anos) em diferentes fases de existência presumivelmente sempre inquieta.
Com narrativa que vai e vem no tempo, a série “Alucinação” alterna cenas de Belchior nos anos 1960 e 1970 com flashes da vida itinerante do artista e da companheira Edna Prometheu pelo Uruguai e pelo Sul do Brasil, período em que Belchior se retirou da vida pública.
Nessa fase, que foi de 2007 até 2017, ano da morte do artista, o arisco cantor é interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos enquanto a também enigmática Edna é vivida por Isabela Garcia.
Nesse período estranho em que nada fez muito sentido para o público de Belchior, o casal dependeu da bondade de estranhos e viveu fugindo, cúmplice, sem pouso fixo.
Dessa fase, a cena em que Belchior cai no choro ao tentar tocar um violão deixa entrever dores que possivelmente consumiam a alma do artista.
No quarto e último episódio, entra em cena o Belchior da infância, vivido por Márcio Levi, em tentativa do roteiro de montar um quebra-cabeça que nunca fecha.
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