Quando a tela passa do limite: o celular não quer apenas seu tempo, mas também sua atenção
A infância e a adolescência ganharam uma nova medida de tempo: aquela que aparece no canto da tela do celular.
O problema é que, para muitos jovens, esse relógio corre mais rápido do que deveria.
Não se trata apenas de quantas horas são gastas diante de um aparelho, mas do que acontece quando a atenção passa a ser disputada por notificações, vídeos curtos, recomendações personalizadas e mecanismos desenhados para manter o usuário conectado.
No Brasil, os próprios adolescentes já percebem que perderam parte do controle.
Segundo a pesquisa “Adolescência Sem Filtro”, realizada em junho deste ano pelo Instituto Alana em parceria com a agência Koga, 50% dos jovens de 13 a 17 anos afirmam passar mais tempo online do que gostariam.
Quase oito em cada dez ficam conectados por mais de três horas diariamente, enquanto 15% ultrapassam oito horas.
Cerca de 40% dizem estar mais dependentes do celular e da internet do que há dois anos, proporção semelhante à dos que relatam perda de qualidade do sono e de tempo dedicado aos estudos.
A ansiedade durante o uso é mencionada por 22%.
Os números ajudam a deslocar a discussão.
Tempo de tela deixou de ser apenas uma questão de disciplina doméstica ou de estabelecer limites para o celular.
Para crianças e adolescentes, a exposição prolongada às plataformas pode se misturar a sono insuficiente, dificuldades de concentração, ansiedade, comparação social e sensação de dependência.
É nesse ponto que ganha força o debate sobre o chamado “extrativismo da atenção”, difundido por Tristan Harris, ex-especialista em ética de design do Google e cofundador do Center for Humane Technology, que parte de um princípio simples: se atenção pode ser convertida em dados, engajamento e, consequentemente, dinheiro, existe um incentivo econômico para mantê-la presa pelo maior tempo possível.
Ou seja, rolagem infinita, reprodução automática, notificações, contagem de curtidas e recomendações personalizadas não são necessariamente recursos neutros, mas sim fazem parte de uma arquitetura pensada para tornar o próximo clique mais fácil do que sair.
Continua após a publicidade Nos Estados Unidos, essa discussão chegou aos tribunais.
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