Após ajudar a parir o tarifaço, Flávio critica Lula por reagir aos EUA
Imagine que Cebolinha acuse Mônica de gastar tempo demais limpando o chão da própria casa e reclamando do Cascão. Segundo ele, ela deveria abandonar o balde e o esfregão porque há outros problemas importantes a resolver. O que Cebolinha omite é que foi ele quem incitou Cascão a entrar e espalhar sujeira pela casa da Mônica.
Na versão eleitoral dessa história, Cebolinha é Flávio Bolsonaro, Mônica é Lula e Cascão atende por Donald Trump.
Em seu primeiro comício de campanha, hoje, em Copacabana, F lávio afirmou que o governo petista perde tempo brigando com os EUA enquanto não enfrenta traficantes dentro do Brasil.
"O atual governo briga com países que estão a 10 mil quilômetros de distância da gente, em outro continente, mas não briga com o ladrão vizinho, traficante, estuprador, assaltante e assassino. Um governo que não tem a capacidade e a vontade de defender quem mora aqui também não tem condições de manter a soberania sobre seu próprio território", disse ele ao lado de uma bandeira dos Estados Unidos.
É uma comparação conveniente para quem ajudou a criar o problema que agora usa para atacar o adversário. Flávio viajou a Washington, reuniu-se com Trump na Casa Branca, pediu ajuda ao governo norte-americano nas eleições. Seu irmão Eduardo havia feito o trabalho sujo no ano anterior, instalando-se nos Estados Unidos para defender sanções contra autoridades, instituições e a economia do próprio país a fim de salvar o pai da cadeia por tentativa de golpe.
Agora, Flávio tenta esconder esse cadáver debaixo do tapete realizando uma pirueta semântica. Como a palavra "soberania" lembra o eleitor da atuação de sua família contra o Brasil, o candidato resolveu trocar seu significado.
"Nós perdemos a soberania. Não temos mais soberania sobre nosso celular, nosso carro, nossa bolsa, nossa casa", disse em Copacabana.
Segurança pública é fundamental. Sem ela, o cidadão perde liberdade, o suado patrimônio e, muitas vezes, a vida. Mas soberania nacional é o direito de um país decidir seu destino sem ser chantageado por uma potência estrangeira. Confundir deliberadamente as duas coisas é uma tentativa de transformar traição nacional em falta de preocupação com o celular roubado.
O truque é simples. Em vez de explicar por que sua família pediu ajuda estrangeira para constranger instituições brasileiras, Flávio aponta para o traficante da esquina e grita que soberania de verdade é poder andar com o telefone na mão.
O candidato pode falar de segurança pública. Deve, aliás.
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