‘Não somos golpistas’, afirma ex-comandante que disse não a Bolsonaro
As quase cinco décadas dedicadas ao serviço militar não foram suficientes para preparar Carlos de Almeida Baptista Júnior, 65 anos, para o que iria presenciar no governo de Jair Bolsonaro na condição de comandante da Força Aérea Brasileira.
Após as eleições de 2022, o tenente-brigadeiro do ar se viu pressionado por aliados do ex-presidente a apoiar um golpe de Estado que impedisse a posse de Lula .
BJ, como é conhecido, no entanto, se recusou a participar da trama golpista, em um ato fundamental para impedir uma escalada autoritária no país.
Dois anos depois, ele voltaria a desempenhar um papel cabal na manutenção da democracia, ao prestar um depoimento no Supremo Tribunal Federal que ajudou a colocar atrás das grades o ex-presidente e alguns de seus colegas de farda.
Passado o turbilhão, o oficial foi para a reserva e se isolou em sua casa em Brasília com o objetivo de colocar as memórias no papel, no livro “Eu disse não — Uma trincheira antigolpista”, (editora Autêntica, 240 págs.), que acaba de ser lançado.
Na entrevista a seguir, ele conta alguns dos bastidores dessa história, reflete sobre os rumos do país, e garante: o povo não quer uma ditadura.
Qual foi o preço que o senhor pagou por ter se posicionado contra o golpe? O pior de tudo aconteceu no campo pessoal.
Até hoje uma grande parte acha que me chamar de melancia — militar que usa uniforme verde por fora, mas é vermelho e, portanto, comunista por dentro — vai me afetar.
Eu sou uma pessoa pública, consigo lidar com ataques, mas a minha família não deveria ser envolvida nisso.
Passaram dos limites.
Quem o atacou? O general Braga Netto, que tinha como um grande amigo, orquestrou uma campanha de difamação contra mim.
Militares da reserva, principalmente mais antigos, que entraram nas Forças Armadas no período de governo militar de 1964, também me criticaram.
Perdi amizades de 50 anos, mas nunca tive dúvidas sobre como me posicionar.
Não sou herói por cumprir a lei.
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