Excesso de treino afeta a regulação química do cérebro, mostra estudo
André Julião | Agência FAPESP – O excesso de exercícios físicos não afeta apenas os músculos; ele também pode alterar a química do cérebro. Um novo estudo publicado na revista Neuroscience revelou que treinamentos exaustivos e sem o descanso adequado modificam a regulação de dopamina no hipocampo, uma região cerebral intimamente ligada à memória e à regulação das emoções.
Ao observar camundongos submetidos a uma rotina de exercícios intensos, pesquisadores brasileiros notaram que a dopamina – neurotransmissor essencial para nos manter alertas e motivados – permaneceu alta justamente na hora em que os animais deveriam estar repousando. Se esse mesmo mecanismo se confirmar em humanos, a descoberta pode ajudar a explicar por que atletas que treinam além da conta frequentemente sofrem com ansiedade, insônia e fadiga crônica, destacando a importância biológica do descanso para o rendimento físico e a saúde mental.
“Nossos achados mostram que o excesso de exercício físico não afeta apenas o músculo esquelético, mas tem um impacto pronunciado no cérebro”, afirma Alisson Luiz da Rocha , primeiro autor do estudo, realizado como parte de seu doutorado na Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EEFERP-USP) com bolsa da FAPESP. Segundo ele, os dados reforçam a visão de que a atividade física atua de forma direta e profunda no sistema nervoso central, indo muito além da mera construção de massa muscular.
Nesse segundo grupo, os roedores treinaram por oito semanas com cargas progressivamente mais pesadas, chegando a duas sessões diárias separadas por apenas quatro horas de recuperação na última semana. Em seguida, os pesquisadores analisaram o hipocampo dos animais, medindo os níveis de dopamina, serotonina e de proteínas envolvidas na produção desses neurotransmissores, como a tirosina hidroxilase (TyrH) e o transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2).
Os resultados mostraram que, no exercício agudo, a dopamina subiu logo após o fim da corrida. No entanto, o achado mais crítico ocorreu no grupo do treinamento crônico: os níveis de dopamina e da enzima TyrH, responsável por sua síntese, estavam elevados 48 horas após o teste de desempenho, durante a fase de repouso dos camundongos.
Segundo o coordenador do estudo, o professor da EEFERP-USP Adelino Sanchez Ramos da Silva , caso alterações semelhantes ocorram em humanos, elas poderão contribuir para compreender possíveis relações entre o treinamento excessivo, a regulação cerebral e os distúrbios do sono.
Vale ressaltar, contudo, que o estudo não mediu sono, estado de alerta ou ansiedade. A relação entre o achado nos camundongos e esses sintomas em humanos poderá ser explorada em pesquisas futuras.
Os autores enfatizam que a dopamina não é uma vilã biológica, já que é fundamental para a sensação de prazer e para nos manter despertos nas horas certas. O problema real, como aponta Rocha, é o desequilíbrio gerado quando ela aumenta na hora de dormir, além da proporção desigual que se cria em relação a outros neurotransmissores.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em agencia.fapesp.br — o conteúdo pertence a Agência FAPESP.