Será a era dos coléricos?
Há uma sensação estranha atravessando o nosso tempo, como se estivéssemos cercados por vozes que gritam, opinam, acusam, corrigem e interrompem sem cessar.
O mundo parece ter desaprendido a respirar entre uma frase e outra.
Não é apenas uma impressão individual; é um clima emocional que invade as redes sociais, as famílias, os relacionamentos, os ambientes de trabalho, os noticiários e até os pequenos encontros cotidianos.
Tudo parece carregado de urgência, indignação e confronto, e às vezes me pergunto se estamos entrando na era dos coléricos.
Não falo do temperamento como diagnóstico, mas como metáfora de um comportamento coletivo que vem sendo cada vez mais valorizado.
Todos nós carregamos alguma porção de fogo e alguma porção de água, impulsos de ataque e desejos de paz.
O problema é que certas épocas premiam determinados traços e empurram outros para a sombra.
A nossa parece aplaudir quem reage rápido, quem fala mais alto, quem transforma qualquer discordância em batalha.
O colérico sempre existiu.
É aquele que se move pela intensidade, pela ação, pela necessidade de controlar o rumo das coisas.
Tem coragem, iniciativa, energia para enfrentar obstáculos, e em muitos momentos da história foram pessoas assim que abriram caminhos importantes.
Mas o colérico saudável constrói; o colérico exaltado consome.
E talvez estejamos vivendo justamente uma inflação dessa exaltação.
As redes sociais se tornaram um palco permanente para o temperamento inflamado.
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