A república dos jatinhos
Assim como o charuto e o uísque Macallan, o jatinho privado está se tornando um símbolo do que há de pior em certa elite que ocupa cargos públicos
Whastapp Facebook Linkedin Twitter COMPARTILHAR Ícaro ganhou asas feitas de penas e cera para escapar da ilha de Creta. O pai o alertou do risco de voar alto demais, mas ele não ouviu. Aproximou-se do sol, a cera derreteu e ele caiu no mar. Há milênios, a história serve como advertência contra a soberba e o desprezo por limites que devem ser respeitados.
Os jatos privados de hoje têm asas de metal, que não derretem ao sol. Ainda assim, podem derrubar figuras públicas. Há muitos candidatos a Ícaro cruzando os céus do Brasil.
A semana começou com dois episódios. Um envolve Alexandre de Moraes, sua mulher, Viviane Barci, e aeronaves operadas por empresa que tinha Daniel Vorcaro como sócio. O outro, Lula e a lobista Roberta Luchsinger.
Eles se unem a diversos outros. Um levantamento recente da Folha de S.Paulo sobre 2025 mostrou dezenas de autoridades dos três Poderes recorrendo a jatos de empresários. Ciro Nogueira fez oito viagens em avião pertencente a um dos donos da JBS Terminais; integrantes do governo também apareceram em aeronaves particulares. No Judiciário, Gilmar Mendes pegou carona em avião de empresa então ligada a Daniel Vorcaro, enquanto Dias Toffoli utilizou aeronaves associadas à Prime Aviation, que teve o banqueiro como sócio.
O mesmo Toffoli viajou a Lima, no Peru, no jatinho do empresário Luiz Osvaldo Pastore para assistir à final da Libertadores entre Palmeiras e Flamengo, em novembro de 2025. Entre os passageiros estava Augusto Arruda Botelho, advogado de um diretor do Banco Master. Toffoli afirmou a interlocutores que é amigo de Pastore e que não trata de processos nesses passeios.
Neste domingo, 20, Lauro Jardim revelou em O Globo um vídeo em que Moraes e Viviane aparecem desembarcando de um jato no Santos Dumont, no Rio, em 22 de agosto de 2025. A aeronave, um Embraer Legacy 650, era operada pela Prime Aviation, empresa que teve Vorcaro como sócio até setembro daquele ano. O voo partiu do Aeroporto Catarina, em São Paulo; Moraes tinha compromisso no Rio.
Depois da divulgação das imagens, o escritório de Viviane reconheceu que contratava serviços de táxi aéreo da Prime e de outras empresas. Sustentou que a escolha da aeronave cabia à operadora e que a contratação não representava “vínculo pessoal com proprietários de aeronaves ou operadores específicos”. O escritório também confirmou que, em determinados voos, Viviane foi acompanhada pelo marido.
Não é o que sugerem as mensagens extraídas do celular de Vorcaro. Na véspera daquele voo, uma funcionária da Prime avisou ao banqueiro que o PP-NLR estava reservado para “o voo da Barci”. Vorcaro respondeu: “Não deixe de atender Barci”. Em outra conversa, perguntou se Moraes e Viviane estavam utilizando o serviço e determinou que se deixasse “tudo à disposição” para “eles poderem usar”. Viviane, segundo o material, respondeu a um executivo da empresa que estavam “gostando muito” dos aviões.
O segundo caso é diferente, mas talvez seja ainda mais revelador sobre a sensação de invulnerabilidade que os aviões conferem.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em oantagonista.com.br — o conteúdo pertence a O Antagonista.