Livro resgata o romance avassalador de Marcel Duchamp e Maria Martins
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Com movimentos que lembram uma dinâmica de submissão misturada a um bote, as duas formas que compõem " O Impossível ", uma das esculturas mais célebres da artista brasileira Maria Martins , parecem prontas para abocanhar uma a outra.
À esquerda, uma forma preta em bronze, mais baixa e larga que seu par, lembra uma água-viva, com tentáculos ondulados se abrindo. Um corpo cartunesco, com pezinhos, cria uma abertura de virilha onde repousa um pênis flácido. A esse par de pernas está colada a outra forma, esguia, com cintura marcada, quadril largo e seios femininos. Daí sobe um pescoço que se transmuta numa boca de planta carnívora, cujas perninhas se entrelaçam aos tentáculos da outra forma. É uma eterna provocação.
Não à toa o título da obra de Martins dá nome ao livro que resgata a história de amor entre ela e Marcel Duchamp , escrito por Francis Naumann, um dos grandes especialistas no francês. A relação, discreta e avassaladora, era impossível desde o início. Martins era casada com o embaixador do Brasil nos Estados Unidos e não pretendia largar o marido.
Lançado nos Estados Unidos em março deste ano e traduzido para o português no mês passado, o livro remonta a relação discreta e avassaladora dos dois artistas a partir de registros de arquivo e entrevistas com familiares.
É provável que o casal tenha se conhecido em 1943, quando Martins vivia em Nova York como embaixatriz. "Diga-me quem são seus inimigos, para que eu possa ajudá-lo a odiá-los", ela teria dito ao francês.
Essa linguagem especulativa perpassa o livro "Impossível". Isso porque o autor tenta, sem a pretensão de atestar verdades, juntar os estilhaços deixados pelo casal. É um quebra-cabeça em que faltam muitas peças. Duchamp tinha o hábito de rasgar as cartas que recebia depois de as responder —era parte de um sistema de organização pessoal, não uma paranoia por privacidade— e não se sabe o que Martins dizia a ele.
Mas sabemos o que o artista dizia a ela. Conhecido como pai do dadaísmo, vanguarda irreverente que abraçava o nonsense, o Duchamp que aparece na biografia está despido das camadas cerebrais associadas à sua arte e aparece à flor da pele como Marcel.
"Como eu gostaria de respirar com você", escreve ele, em outubro de 1948. "Sinto-me de todo perdido, agora que estamos completamente isolados um do outro. Esse isolamento dói", escreve, em 1950, quando Martins se mudara para Paris com o marido.
Segundo Naumann, os sentimentos de Duchamp por Martins desmontam uma imagem pública que ele tentava construir. O artista dizia que se sentia livre porque recusava as coisas da vida que os outros precisavam, dentre elas, uma namorada ou mulher. Ao mesmo tempo, sofria pela paixão que sentia por sua amante inatingível.
"Eu já havia sugerido, no passado, que a direção da influência normalmente atribuída a Duchamp –irradiando-se dele para praticamente todos os artistas que entraram em contato com sua obra– poderia, no caso de Maria Martins, ter seguido o caminho inverso: dela para ele", escreve o historiador.
Esse sentimento todo transbordou em abundância para a obra dos dois.
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