Como o Ceará virou triste exemplo do domínio territorial do Comando Vermelho
Espalhar tentáculos por vastos territórios e impor uma cartilha própria, em escancarada afronta às autoridades e à lei, sempre foi um dos princípios fundamentais do Comando Vermelho (CV).
Gestada dentro do presídio da Ilha Grande, no litoral fluminense, no final dos anos 1970, a facção aos poucos variou o leque de atividades para muito além do tráfico de drogas e extrapola as fronteiras dos morros cariocas, seu laboratório de origem, em velocidade espantosa.
A tática é subjugar a população das áreas sob seu domínio, à base do medo, enfrentando a polícia e, não raro, em conivência com o poder público.
Assim, a quadrilha que mais cresce no país já mantém células em 24 estados, sempre de olho no fluxo de caixa e em pontos que sirvam para o escoamento de entorpecentes.
Foi essa conjunção que levou o grupo a fincar profundas raízes no Ceará, onde já se esparramou por praticamente todo o estado — fenômeno jamais observado nessa proporção em outro canto, nem mesmo no Rio de Janeiro.
LOGÍSTICA - Porto do Pecém: estratégico para o escoamento de drogas Complexo do pecém/.
O feito — que só os bandidos evidentemente celebram — foi cravado sob o fogo cruzado com bandos rivais que antes davam as cartas no submundo do crime cearense.
Um relatório da Polícia Civil revela que o CV atua em 80% dos municípios do Ceará, número que, segundo especialistas dedicados a mapear a ação da bandidagem por lá, já chegou a 90%.
Em nenhum outro estado o CV está tão entranhado.
A inacreditável fatia de terra em que se faz presente supera os 76% de solo em que impõe suas regras no Rio, o berço da organização, de acordo com dados da Polícia Militar (PM).
“Há pelo menos uma década as facções nacionais tentam conquistar o Norte e o Nordeste, mas é a primeira vez que se vê um domínio desta grandeza no Ceará”, diz Artur Pires, sociólogo do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Não por coincidência o estado aparece em destaque no topo de um ranking que ninguém ambiciona: três das cidades brasileiras entre as dez mais violentas do país são dali, de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho.
Nos últimos cinco anos, enquanto o Brasil viu o número de homicídios cair 8,6%, o Ceará assistiu a um avanço de 28%.
A escalada da barbárie fez a pequena Maranguape, com seus 108 000 habitantes, na região metropolitana de Fortaleza, figurar na incômoda posição número 1 da lista.
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