Disputa diplomática entre Brasil e EUA trava combate a facções, diz jornal
Uma disputa diplomática tem atrapalhado a cooperação entre EUA e Brasil no combate ao crime organizado, segundo o The New York Times.
O Departamento de Estado dos EUA está retendo vistos de dois agentes da Polícia Federal que trabalhariam no país em ações contra crimes transnacionais. Eles estavam escalados para atuar em Miami e Nova York em parceria com a Homeland Security Investigations e outras agências federais, de acordo com autoridades americanas e brasileiras ouvidas pelo jornal sob condição de anonimato.
Brasil reagiu e também passou a bloquear o visto de um funcionário americano de segurança que seria lotado no país. A medida, segundo os mesmos relatos, é uma resposta direta à demora para liberar os policiais brasileiros.
Governo americano também recusou um pedido de visita de agentes brasileiros de alfândega e arrecadação que investigam lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Autoridades brasileiras disseram ao The New York Times que os EUA alegaram agenda cheia e indicaram indisponibilidade até novembro.
Especialistas avaliam que a cooperação técnica segue em parte, mas a falta de coordenação de alto nível trava planos mais ambiciosos. "Hoje, facções criminosas não conhecem fronteiras. Então precisamos trabalhar juntos", disse Edvandir Felix de Paiva, presidente da associação de delegados da Polícia Federal.
Os EUA afirmaram que mantêm padrões rígidos no processo de vistos e que seguem comprometidos com interesses compartilhados. Em nota citada pelo jornal, o Departamento de Estado disse que protege "a nação e seus cidadãos ao manter os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública por meio do nosso processo de vistos".
O jornal relata que as interrupções ocorrem após um ano de atritos, atribuídos a tentativas do presidente Donald Trump de interferir em assuntos internos do Brasil. A publicação afirma que a relação piorou com a percepção, em Brasília, de que Washington estaria disposto a ajudar Flávio Bolsonaro, candidato de direita que enfrenta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de outubro.
Para o pesquisador Robert Muggah, do Instituto Igarapé, a política doméstica passou a contaminar a área de segurança. "A percepção é que a política de segurança dos EUA em relação ao Brasil ficou misturada com política", afirmou.
Muggah diz que não houve ruptura, mas que a confiança foi afetada. "Isso não levou a uma ruptura fundamental, mas trouxe novas complexidades para a relação e a tingiu com níveis de desconfiança", completou.
Brasil e EUA têm histórico de investigações conjuntas e de envio de adidos policiais, o que já ajudou a desmontar esquemas internacionais de corrupção, pirataria e tráfico de pessoas. O jornal lembra que a agência americana Immigration and Customs Enforcement mantém um adido no Brasil há mais de duas décadas.
O impasse atual envolve também a troca de adidos e medidas recíprocas após uma expulsão ocorrida em abril.
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