Virada de Lula impõe freio ao avanço da extrema direita na América Latina
Quem olhou o mapa político da América Latina nos últimos meses viu a tal "onda azul" avançar. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella derrotou Iván Cepeda por menos de 1% no segundo turno. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ditador, superou seu rival por cerca de 49,6 mil votos, uma diferença de apenas 0,27%. Somam-se a eles Kast no Chile e Bukele em El Salvador, entre outros. E gritando mais do que qualquer um, Milei na Argentina. Os governos de direita já são maioria na região, superando o ciclo progressista anterior.
Em uma virada histórica, Lula obteve 51,8% dos votos válidos, contra 48,2% de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Flávio havia sido o mais votado, com 47%, dois pontos à frente do petista, uma diferença de 2,2 milhões de votos. Viradas não acontecem por geração espontânea.
A movimentação das ruas e das redes no segundo turno riscou uma linha no chão. Uma parcela imensa do Brasil avisou, em alto e bom som, que não ficaria calada diante de tentativas de retrocesso representadas pela volta do clã Bolsonaro. Isso significa mais do que o chavão de que o país sai dividido das urnas, pois dividido ele já estava.
As grandes manifestações foram muito mais do que atos de campanha. Reuniram gente que gosta de Lula, que o tolera, que o critica duramente e até quem gostaria de nunca mais precisar votar nele. Pessoas que discordam sobre economia, segurança pública, costumes e os meios pra se chegar ao futuro, mas que convergiram diante da percepção de que a democracia corria riscos reais.
Basta ver quem estava na primeira megamanifestação a favor de Lula na avenida Paulista no dia 11 de outubro. O ato foi organizado de forma independente por grupos de jovens e fandoms, comunidades de fãs de artistas pop. Teve torcidas organizadas, movimentos estudantis e representantes LGBT+. Uma semana depois, houve atos em Rio, Salvador, Brasília e Belo Horizonte.
O dado mais relevante desse segundo turno talvez tenha sido o fortalecimento de uma musculatura política que não depende exclusivamente dos partidos. Eles continuam fundamentais, mas entraram em cena coletivos, organizações cidadãs e indivíduos que decidiram pegar o touro à unha. Uma geração que aprendeu a disputar narrativas nas redes, muitas vezes enfrentando máquinas profissionais de desinformação, foi às ruas olhando nos olhos, caminhando ao lado de desconhecidos e reconhecendo no outro um aliado possível.
Ao mesmo tempo, a esquerda começou a aprender a disputar o ambiente digital. Ainda há uma distância enorme entre usar as redes e compreender plenamente a linguagem delas, mas as últimas semanas mostraram que criatividade, humor, indignação e organização podem ser mobilizados sem copiar os métodos do adversário.
No segundo turno, ruas e redes deixaram de ser universos paralelos e passaram a funcionar como partes de uma mesma mobilização.
Nas plataformas, a campanha de Lula denunciou tratamento desigual por parte das Big Techs, principalmente a Meta, e especialistas da ONU pediram explicações sobre as restrições. A empresa reconheceu falhas em seus sistemas, mas negou interferência intencional. Falhas técnicas, claro. Que, curiosamente, parecem tropeçar sempre para o mesmo lado.
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