Lula e Renan têm mais voto por propostas, Flávio depende mais da rejeição
O eleitor vai escolher alguém ou impedir que outro alguém vença? Os números do Datafolha sobre a corrida presidencial de 2026 apontam que apesar de uma maioria votar por convicção, há um número significativo que não.
Lula tem 68% de seu eleitorado dizendo que vota nele pelas propostas. Renan Santos bate ainda mais alto, com 73%. Mais de dois terços de seus eleitores são por convicção, o tipo de base que não se move tanto ao sabor do noticiário da semana. Flávio vem bem atrás, com 56%.
Do outro lado, considerando os eleitores do petista, 23% afirmam que votam nele para derrotar outra pessoa, taxa parecida com a de Renan: 24%. Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado têm 35%, 37% e 31% de eleitores que admitem que estão ali como a forma mais fácil de derrotar outro candidato. É um terço ou mais de cada uma dessas candidaturas sustentada não por adesão a um projeto, mas por cálculo eleitoral.
Não dá para dizer que Flávio, Zema e Caiado estão, na prática, competindo entre si par ser de "candidato mais viável contra o PT" porque o senador já recebeu do eleitorado esse selo. Se os outros dois não tivessem começado a campanha como candidaturas genéricas do bolsonarismo, prometendo até anistia a golpista, talvez a história teria sido diferente.
Como está convencendo o eleitorado antipetista de que é o nome com mais chance de vencer, Flávio tende a sugar os outros dois na reta final do primeiro turno. O problema é que competir para ser o "menos pior contra o adversário" tem um preço.
Por mais que toda reeleição seja um grande plebiscito para conferir de um governante terá direito a terminar seu "mandato de oito anos", uma campanha de um candidato adversário construída sobre rejeição tem um teto. E esse teto não é definido pelas qualidades, mas pelo tamanho do medo que o outro inspira.
Enquanto Lula parecer ameaçador para uma grande parte desse eleitorado, o candidato pragmático cresce. No instante em que o adversário aparecer como um BO ainda maior, esse comportamento reativo no atual presidente pode esfriar. E junto com ele o voto que só existia para conter o "inimigo".
É o oposto do que acontece com quem vota por propostas. Esse eleitor não devolve o voto quando o adversário se comporta bem. Ele fica, porque nunca foi sobre o adversário, mas sobre a proposta.
Some a isso um outro ingrediente, o "voto resignado". O eleitor que escolhe por falta de opção melhor tende a ser o primeiro a faltar à urna quando as coisas apertam ou a migrar para o branco e o nulo.
Não se trata de dizer que quem vota "contra" está errado, pois a democracia também se exerce pela recusa e o voto útil é uma escolha legítima e racional diante de um sistema que empurra o eleitor para decisões binárias. O ponto é outro: campanhas que dependem quase inteiramente do medo do outro lado constroem prédios sem fundação. Funcionam enquanto o vento sopra a favor.
Os 56% de eleitores de Flávio que dizem votar nele por propostas, bem abaixo dos 68% de Lula, não são só um número incômodo para a campanha, mas o retrato de uma dificuldade estrutural.
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