Não é mais lenda: 'veado preto' do Pantanal é confirmado pela ciência
Pesquisadores documentaram pela primeira vez casos de melanismo no cervo-do-pantanal ( Blastocerus dichotomus ), também conhecido como "veado preto". A condição genética provoca produção excessiva de melanina e deixa a pelagem do animal muito mais escura que o normal.
Os registros ocorreram na Caiman Pantanal, em Mato Grosso do Sul, e no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, entre Minas Gerais e Bahia. Os resultados foram publicados na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos. O estudo foi realizado por integrantes da Associação Onçafari em parceria com Walfrido Tomas, pesquisador da Embrapa Pantanal.
O chamado "veado preto" não é uma nova espécie, porém, só agora foi registrado pela comunidade científica. O nome é um apelido informal dado aos cervos-do-pantanal que apresentam a pelagem escura.
O primeiro caso envolveu uma fêmea adulta fotografada em 26 de fevereiro de 2021 na Caiman Pantanal, uma propriedade rural e reserva natural em Miranda (MS). O animal chamou a atenção porque nenhum cervo-do-pantanal melânico havia sido documentado cientificamente na região, apesar de quase 40 anos de pesquisas e monitoramento da fauna. Depois daquele encontro, a fêmea não voltou a ser vista.
Moradores do Pantanal, porém, já relatavam a presença de cervos com pelagem preta antes da confirmação científica. O estudo classifica essas histórias como "relatos anedóticos" e cita a Baía do Cervo Preto, localizada perto da Estação Ecológica de Taiamã, em Mato Grosso. O nome do lugar é um indício de que a figura do animal já fazia parte da memória regional antes de o melanismo ser documentado na espécie.
O cervo-do-pantanal apresenta normalmente pelagem castanho-avermelhada, barriga mais clara e partes inferiores das pernas e da cauda pretas. Nos animais documentados, a mudança foi provocada pelo melanismo. A condição está associada à produção excessiva de melanina, pigmento responsável pela coloração da pele e dos pelos.
Casos de albinismo e leucismo, condições relacionadas à ausência total ou parcial de pigmentação, já haviam sido registrados na espécie. O melanismo, no entanto, ainda não tinha sido descrito cientificamente em cervos-do-pantanal.
Os pesquisadores ainda não identificaram quais genes estão envolvidos nos casos brasileiros.
Entre janeiro de 2022 e fevereiro de 2026, as equipes realizaram um esforço de monitoramento equivalente a 61.830 noites-câmera no Parque Nacional Grande Sertão Veredas. Nesse período, as armadilhas fotográficas produziram apenas 31 registros independentes de cervos-do-pantanal. Três deles mostraram animais melânicos. Os pesquisadores também tiveram 12 encontros diretos com a espécie no parque. Oito dessas observações, ou 66,7%, envolveram cervos de pelagem preta.
A porcentagem considera apenas o número reduzido de avistamentos feitos durante o estudo. Ela não significa que 66,7% de toda a população de cervos da região seja melânica.
A comparação das imagens permitiu identificar pelo menos dois machos diferentes. Todos os registros de melanismo no Cerrado analisados no trabalho ocorreram entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026.
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