Entre o agro e o Bolsa Família, o pequeno comerciante fica à deriva
O Brasil convive com uma curiosa diferença de tratamento quando o assunto é dinheiro público.
Quando bilhões são mobilizados para financiar setores produtivos, fala-se em investimento, desenvolvimento, geração de empregos e crescimento econômico.
Quando uma parcela bem menor chega diretamente às famílias pobres, rapidamente aparecem expressões como gasto, dependência, assistencialismo e peso para o contribuinte.
Os números ajudam a dimensionar essa diferença.
O Orçamento de 2026 reservou R$ 159,5 bilhões para o Bolsa Família.
O programa alcança atualmente cerca de 19 milhões de famílias, com benefício médio próximo de R$ 680 mensais.
Na outra ponta, o Plano Safra 2026/2027 disponibiliza R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial.
São R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos.
Outros R$ 85,2 bilhões estão previstos para operações do Pronaf, destinado à agricultura familiar.
É preciso fazer uma distinção fundamental: não são R$ 525 bilhões entregues aos produtores.
Trata-se majoritariamente de crédito, dinheiro emprestado que precisa ser pago.
O apoio do Estado aparece também na política de juros, inclusive por meio da equalização das taxas pelo Tesouro Nacional.
No Plano Safra empresarial atual, há linhas com juros entre 8,5% e 12,5% ao ano.
Essa ressalva feita, permanece uma questão política e social que merece discussão: por que o apoio público destinado a quem produz costuma ser tratado como instrumento necessário ao desenvolvimento, enquanto o dinheiro destinado a quem precisa comer é frequentemente colocado sob suspeita? Não se trata de colocar o pobre contra o produtor rural.
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