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Flávio e Moraes ganham apoios de quem tem memória e ideias seletivas sobre democracia e república

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Flávio e Moraes ganham apoios de quem tem memória e ideias seletivas sobre democracia e república

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)

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Manifestos de empresários e da "sociedade civil", associações de gente bem-situada na vida, pedem "transparência" no Supremo. Sob muitos aspectos, têm razão. Pela decência básica, ao menos dois ministros do STF estariam com o pé na cova judicial. Sob outro aspecto, a revolta é seletiva, assim como vazamentos, inquéritos, juízes, a memória etc.

Esquece-se da história de Flávio "Página Virada" Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Perto do passado dele, o que se sabe por ora do dinheiro para financiar as artes da família, o "Dark Horse", ainda é fichinha.

A indignação foi inflamada pela divulgação de mensagens que Daniel Vorcaro enviava ao celular de um Alexandre de Moraes , pedindo ajuda para fugir da polícia. Esse "um" Alexandre de Moraes é um benefício generoso da dúvida. Para merecê-lo, o ministro teria de provar que o gângster na verdade ligava para o celular de um Zé Laranja Encerrabodes de Oliveira, não o de Moraes. Não sendo o caso, teria de explicar por que não chamou a polícia, ainda na hipótese generosa. Sem isso, o ministro estaria no bico do corvo em um mundo de processos legais.

Por erro ou "erro" de procedimento de André Mendonça ou por chicana política, Moraes pode escapar, para aumento da indignação, mais típica de antilulistas. Lulistas defendiam Moraes e apontam, em parte com razão, que Mendonça colaborou com o autoritarismo bolsonarista. No mais, os Moraes e Bolsonaros levaram dinheiro de Vorcaro.

O STF está em guerra de poder e eleitoral. Um vazamento pode decidir a eleição, temem ou esperam lulistas e bolsonaristas. Edson Fachin por ora vai levar só Moraes ao cadafalso; Mendonça fica para depois. Aliados de Xandão podem vir a alterar o processo, com a tese do "erro de procedimento" ou jogando o caso de mais ministros no ventilador. Fachin já sabe do destino do julgamento ou arrisca? De qualquer modo, mandou Mendonça abrir sigilos, acusação implícita de seletividade. Seja qual for o resultado da sessão de terça no STF, se houver terça, chicanas políticas vão cobrir de cinzas a "transparência", que será elogiada por quem vencer provisoriamente a disputa.

Erro de procedimento é o elixir da vida de moribundos judiciais, embora devesse ser levado a sério. Erro de procedimento foi em parte o caso da Lava Jato; muito crime empresarial acaba nisso, sem motivar manifestos. Erro de procedimento foi o elixir de Flávio.

Flávio foi denunciado em 2020 pelo Ministério Público por peculato, lavagem de dinheiro , apropriação indébita e organização criminosa. Era acusado de pegar o salário de seus funcionários na Assembleia do Rio de Janeiro e de lavar o furto pagando despesas pessoais e compras de imóveis com dinheiro vivo ou por meio da loja de chocolate. O dinheiro era recolhido por Fabrício Queiroz, elo de Flávio com milícia.

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