'Veremos ação militar direta dos EUA', prevê especialista em América Latina
O jornalista americano Jon Lee Anderson avalia que a política de Donald Trump pode levar os EUA a ações militares diretas em países das Américas sob o argumento de combate ao narcotráfico. O profissional, um dos mais experientes sobre a região, falou à BBC News Brasil.
Anderson diz ver risco de escalada na atuação externa dos Estados Unidos no continente. "A próxima coisa que veremos é ação militar americana direta em diferentes países, supostamente contra o narcotráfico. Tudo isso é preocupante em termos do respeito à soberania entre as nações", afirmou à BBC News Brasil.
Para o repórter, a postura de Trump pressiona governos e influencia líderes que buscam aprovação da Casa Branca. Na avaliação de Anderson, todo o continente vive em uma espécie de limbo por causa da "dinâmica de um homem que chegou à Casa Branca e efetivamente colocou a própria personalidade e os próprios interesses à frente dos da nação".
Vivemos um momento perverso, e toda a América Latina também. Certos políticos usaram a relação com os EUA de forma oportunista, para se beneficiarem Jon Lee Anderson, jornalista americano
Ele afirma que o efeito, na visão dele, não se limita à América Latina e cita o Canadá como exemplo. "Até o Canadá está sendo tratado como se fosse a Coreia do Norte", declarou.
Anderson também descreve um ambiente de temor entre políticos que possam entrar em choque com Trump. "Deus os livre de cair no lado errado de Trump: ele poderia fazer qualquer coisa para se livrar deles", completou.
Jon Lee Anderson é repórter da revista The New Yorker desde 1998. Biógrafo de Che Guevara e autor de perfis de Hugo Chávez, Fidel Castro e Gabriel García Márquez, ele reporta do continente desde os anos 1980.
Ao comentar a pressão dos EUA sobre Cuba, Anderson diz não enxergar uma ruptura imediata na ilha. "Nunca diria 'nunca', mas não estou vendo isso. Os cubanos estão singularmente acostumados a aguentar privações. Já fizeram isso depois do colapso da União Soviética, durante cinco ou seis longos anos, o chamado período especial, quando Fidel ainda estava vivo, e foi terrível na ilha", afirmou.
Ele avalia que a morte de Raúl Castro pode abrir espaço para mudanças políticas, por retirar do cenário a última figura icônica da Revolução Cubana. Anderson disse à BBC News Brasil que, até lá, a ilha segue vulnerável e dependente de remessas, importações e combustível ligados aos EUA.
Questionado sobre rumores de que Nicolás Maduro poderia envolver Lula em um acordo, Anderson afirmou não ter ouvido falar disso. "Não ouvi falar disso. E não sei se isso o ajudaria. Não consigo vê-lo fazendo isso. Qualquer coisa é possível neste mundo, já vimos gente mudar de lado. Mas Maduro, para salvar a própria pele e a da mulher, delatando abertamente todo mundo da esquerda, assim? Isso seria bastante chocante, nunca vimos algo assim.", disse.
Na mesma resposta, ele comparou o cenário ao do ex-ditador panamenho Manuel Noriega, que entrevistou no fim da vida. "Manteve seus álibis até o fim.", disse Anderson, ao relatar a postura de Noriega.
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