'Honestino' retrata história de líder estudantil morto pela ditadura: 'Todo mundo tem um pouco dele'
Foi após ver Bruno Gagliasso no papel de um agente da repressão em Marighella , de Wagner Moura, que o diretor Aurélio Michiles teve a ideia de escalá-lo para viver Honestino Guimarães, líder estudantil que foi sequestrado pelo regime militar e desapareceu em 1973, aos 26 anos.
"Ele sabia das causas que eu defendo, pelo que eu luto e pensou: 'se ele fez aquilo, eu quero muito vê-lo como Honestino'", recorda o ator, em conversa com o Estadão . Um amigo em comum — o cineasta Sérgio Machado, de Cidade Baixa — fez a ponte, e o resultado chega aos cinemas nesta quinta-feira, 13, por meio de Honestino , documentário com sequências que dramatizam a vida de seu retratado.
A história é pessoal para Michiles: tal qual Honestino, ele foi aluno da Universidade de Brasília, e foi nesse contexto que o conheceu. "Por ele ter tido uma trajetória tão exitosa como líder e um final trágico, essa história sempre esteve dentro de mim de uma forma sufocante; sempre tive medo de mexer nela", diz o diretor. Isso começou a mudar, no entanto, em anos recentes: "Com a situação do mundo e do Brasil, onde nós vivemos uma avalanche que culminou em quatro anos de um governo que elogiava a ditadura e os torturadores, comecei a me questionar".
Coincidentemente, por volta da mesma época, Michiles recebeu uma mensagem de Isaura, primeira esposa de Honestino e mãe de sua filha, Juliana. Isaura lhe enviou um vídeo do neto, Lucas, que discursava por ocasião da reinauguração de uma ponte em Brasília, rebatizada com o nome do avô. Lucas mencionou como gostaria de ter ouvido do próprio avô suas histórias, o que comoveu o diretor. Ele decidiu, então, contar a história de Honestino em filme e recebeu o apoio de Isaura, que lhe entregou ainda uma caixa de pertences. "Eram cartas, poemas, alguns manifestos, comentários políticos, enfim. Toda a vida dele, de 26 anos de idade, estava ali naquela caixa", lembra.
Esses materiais tornaram-se parte importante do filme. Trechos de cartas e outros escritos dão dimensão emocional à figura de Honestino, em uma montagem sensível que costura imagens de arquivo, as cenas ficcionalizadas com Gagliasso e depoimentos de amigos e colegas ligados ao movimento estudantil da época, como o cineasta Jorge Bodanzky. O formato, quase um híbrido, foi uma solução para evitar o que Michiles chama de "um ambiente arqueológico".
Segundo Gagliasso, o encontro de sua versão de Honestino se deu por meio de ideais em comum. "Eu tenho o Honestino em mim; eu luto por democracia, luto por liberdade, luto por tudo aquilo que ele lutou. Eu não tinha registros dele em movimento, mas tinha o principal, que era acreditar no que ele acreditava", diz, acrescentando que isso se estende também ao público: "Acho que todo mundo tem um pouco de Honestino em si. Se você acredita em liberdade, em educação, em democracia, você é um pouco Honestino."
O ator buscou, sobretudo, transmitir a humanidade do retratado. "A gente quer ver não o herói que morreu na ditadura, mas um cara humano; um cara que realmente lutou por tudo isso, mas que era pai, filho, amigo", conta.
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