Mortes: Repórter desafiou os políticos com irreverência
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"Albano! Não foge! Fica aí! Fala aqui comigo!", gritava a repórter Soninha, perseguindo o então senador Albano Franco (SE) pelo saguão do Palácio do Planalto. O político deixava o prédio a passos rápidos para não ser visto pelos jornalistas que trabalhavam no comitê de imprensa, que ficava no térreo. Não conseguiu fugir de Sônia.
Soninha, então repórter da rádio Jornal do Brasil, se dividia entre esse comitê e o da Câmara dos Deputados . Não havia fonte que conseguisse escapar dela sem falar na tal "periquita", nome que ela dera ao gravador, um desses primeiros portáteis que existiram, pesado, com várias teclas e que repetia as frases gravadas tal qual o pássaro.
Conhecia os caminhos e atalhos do poder como poucos. Nascida no Rio de Janeiro , em 15 de outubro de 1951, Sônia Maria Dunshee de Abranches Carneiro morreu na madrugada de domingo (20), aos 74 anos, no apartamento onde morava em Brasília . A família não informou a causa.
Foi uma das grandes da cobertura política. Sua maneira de abordar as autoridades surpreendia os entrevistados, que não conseguiam fugir e acabavam respondendo.
Ao então presidente João Figueiredo (1918-1999), perguntou, em pleno debate sobre a sucessão presidencial, se haveria prévias no PDS (partido fundado em 1980 e sucessor da Arena, que sustentara a ditadura militar ).
Figueiredo respondeu que não. Naquele momento havia mais que um candidato do PDS e muitos integrantes defendiam as prévias. O candidato escolhido foi Paulo Maluf que, na última eleição feita pelo Colégio Eleitoral, enfrentou e perdeu para o mineiro Tancredo Neves .
Figueiredo não teria respondido a outro repórter que não fosse Sônia. Ele era conhecido pela truculência que usava para se dirigir aos jornalistas.
Outro dos grandes repórteres políticos de Brasília, Jorge Bastos Moreno, dizia que Soninha era intrépida e irreverente. Com essas características, fez a cobertura da Constituinte de 1988 , do Colégio Eleitoral (1985), das Eleições Diretas (1989), do impeachment de Collor e de todos os fatos que fizeram a história recente do Brasil.
Uma história tornou Sônia conhecida além das fronteiras da cobertura política de Brasília. A repórter havia sido colega de Fernando Collor de Mello , que, por um período, fora repórter no Jornal do Brasil antes de virar político. A proximidade no jornal rendeu a Sônia uma raríssima deferência do então presidente Collor, que respondia mal ou com grosserias aos demais jornalistas que faziam a cobertura do seu governo.
No segundo andar do Palácio havia àquela época uma sala de briefing, para as entrevistas coletivas. Collor, que andava cheio de problemas no governo, resolveu falar com os jornalistas.
Sônia levantou a mão e perguntou se o presidente estava com Aids . Um silêncio sepulcral tomou conta da sala. Collor ficou pálido, mas logo recuperou a pose e respondeu que não estava doente. Só ela poderia ter feito essa pergunta.
Porém, acima de tudo e do folclore que a cercava, Sônia era uma colega de uma generosidade sem fim.
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