Chocolate de Dubai: o jogo militar por trás da tendência do pistache e o que ela tem a ver com a Guerra do Irã
O mundo se rendeu ao chocolate de Dubai, guloseima recheada por uma cremosa pasta de pistache e fios crocantes de kataifi.
Mas há mais do que cacau e pistache por trás da casca de chocolate ao leite e do apelo estético que mobiliza milhões de visualizações no TikTok e no Instagram.
Mais do que uma tendência de confeitaria, a febre do pistache colidiu com um tabuleiro geopolítico tenso, colocando em evidência sanções econômicas, a hegemonia agrícola dos Estados Unidos e os impactos diretos de conflitos no Oriente Médio.
Historicamente, o pistache pertence culturalmente e comercialmente ao Oriente Médio, tendo o Irã como seu berço tradicional e por décadas o principal marco de referência em qualidade e teor de óleo.
No entanto, ao longo das últimas décadas, esse cenário se transformou.
Enquanto a produção iraniana sofreu com embargos, sanções internacionais, inflação e problemas crônicos de infraestrutura e irrigação, a Califórnia (Estados Unidos) emergiu como a potência hegemônica do setor.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam que os EUA passaram a controlar entre 60% e 65% da produção global da oleaginosa, impulsionados por gigantes do agronegócio como a Wonderful Pistachios.
Para se ter uma noção do embate, o Irã é o segundo maior produtor de pistache do mundo, com 318 mil toneladas, atrás dos Estados Unidos, que produziram 675 mil toneladas, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), de 2024.
Juntos, os dois países respondem por 83% de todo o volume da noz produzido no planeta.
Foi nessa conjuntura de oferta polarizada que, em 2021, a confeiteira Sarah Hamouda, do Emirados Árabes Unidos, criou o famoso chocolate de Dubai.
O que era um produto de luxo regional transformou-se em uma febre global em 2024 e nos anos seguintes, multiplicando a demanda por cremes e pastas de pistache em confeitarias, cafeterias e supermercados do mundo todo.
A guerra e o impacto no Irã A alta demanda gerada pela iguaria coincidiu com momentos de acirramento geopolítico na região do Oriente Médio.
Com o eclodir do conflito envolvendo o Irã, a infraestrutura de exportação do país persa sofreu um duro golpe.
Segundo fontes oficiais e do setor de commodities agroalimentares, a guerra trouxe consequências diretas para o mercado, como a paralisação de rotas e portos, com linhas marítimas cancelando reservas para o Oriente Médio e a disparada de valor de prêmios de seguro de carga para portos iranianos.
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