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Lula e o desejo que o consumo não compra mais

Folha de S.Paulo ·
Lula e o desejo que o consumo não compra mais

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Em sua campanha para a reeleição, o presidente Lula ( PT ) não empolga. Ao eleitor de 2026, ele oferece um discurso que já não convence quem o viu governar por três mandatos . Tampouco ilumina o horizonte de quem deixou de lutar para ascender e passou a lutar apenas para fechar as contas no fim do mês.

Se o PT construiu, ao longo de duas décadas, uma narrativa de inclusão pelo consumo , em 2026 essa narrativa não reconhece que o desejo contemporâneo se organiza em torno daquilo que diferencia, não daquilo que iguala. Ouvi a síntese exata dessa mudança em um grupo focal recente: "Em 2006, eu quitei e reformei meu apartamento; este ano não consigo nem trocar de iPhone". O modelo do aparelho celular que alguém carrega tornou-se, para boa parte do eleitorado, um marcador daquilo que o brasileiro mais valoriza: distinção.

Em conversa recente, a professora Esther Solano , que pesquisa o comportamento do eleitor indeciso desde pelo menos 2014, resumiu o dilema do governo: "Lula precisa de um gesto forte, com promessa de futuro. Senão, como justificar que fará num quarto mandato o que não fez em três?"

A leitura de "Brasil da Maioria: 25 Anos de Classe C", de Renato Meirelles , ajuda a entender por quê. Para parte expressiva da classe C, o beneficiário do Bolsa Família deixou de ser um igual em ascensão e passou a ser uma ameaça simbólica: alguém que se aproxima sem o esforço que sustentou a própria mobilidade de quem já chegou lá. É a lógica que o grupo de rap Racionais MCs sintetizou décadas atrás: "O dinheiro tira um homem da miséria / mas não pode arrancar de dentro dele a favela". O medo de retornar a essa condição é, hoje, um dos combustíveis mais potentes (e menos comentados) do desalinhamento entre o PT e parte do seu eleitorado histórico.

Há ainda uma fratura geracional que os números de intenção de voto raramente capturam. Quando Mano Brown pergunta, em entrevista recente, "o lugar que nós tamo, ficando velho, o que que sobra pra molecada? Contestar nós", ele descreve com precisão o problema de vender a um jovem de 20 anos a ideia de que Lula ainda representa a contestação ao sistema. Simplesmente não representa mais. Esse jovem nasceu com Lula no poder; viveu as transformações das últimas duas décadas como algo dado, não como resultado de disputa política.

Diferentemente da minha geração, que viu o Enem ser criado e não teve Prouni, Fies ou Bolsa Família como ponto de partida, para ele essas políticas são piso, não conquista. Nesse vazio, um discurso como o de Flávio Bolsonaro ( PL ) sobre segurança pública, firme na forma ainda que frágil no conteúdo, dialoga mais diretamente com uma promessa concreta: a de que o iPhone conquistado a duras penas não será roubado no semáforo.

Não é possível entender esse eleitor sem lembrar que somos, em grande medida, um país formado à imagem de "Negro Drama", dos Racionais: uma maioria que equilibra o cotidiano "entre o sucesso e a lama", e que, cada vez mais, vota não para lembrar de onde veio, mas para garantir que não vai voltar.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.

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