Desistências
Administrador de Empresas formado pela FGV. Foi executivo do setor financeiro por 40 anos
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A maior parte afasta-se do edifício, mas outras vão em sua direção, transmitindo desorientação e desespero. Após alguns segundos, pássaros esparsos passam em voo frenético, fugindo de um perigo que não vemos.
Surge então, por detrás do terminal, uma violenta torrente cinza-escura que em segundos toma toda a tela. Somos poupados da visão das pessoas engolfadas: a onda é tão alta e poderosa que obscurece a câmera.
Os cientistas ainda são cautelosos em atribuir diretamente ao aquecimento global esse colapso específico , mas não há dúvidas de que a elevação da temperatura provoca o recuo das geleiras e o derretimento do permafrost, essencial para manter estáveis as montanhas do Himalaia.
Ao refletir o sentimento de impotência e alienação com que assistimos ao desastre, que um artigo do Guardian chamou de "ponto de exclamação em um verão de extremos", ocorre-me a imagem da passividade dos bois na fila do matadouro.
A desorientação das pessoas que fogem da onda quase sólida de detritos é a versão compacta daquela que nos acomete a todos, se ponderamos sobre as consequências —nas próximas décadas— do imobilismo diante do aquecimento global.
Houve momentos de maior determinação e mesmo entusiasmo com as perspectivas de enfrentamento do desafio. Penso no Acordo de Paris de 2015 como evidência maior desse sentimento ; mas o ânimo arrefeceu.
As dificuldades de implementação de um acordo global tão complexo, potencializadas pela oposição fenomenal —escancarada, ou dissimulada— dos grupos de interesse ligados ao setor de combustíveis fósseis, provocam um estado de desalento e descrédito crescentes na sociedade global.
Viktor Frankl, psiquiatra e escritor austríaco que sobreviveu aos campos de concentração alemães —nos quais pereceram sua esposa, pais e irmão—, nos conta em seu livro "O Homem em Busca de Sentido" (que em edições alemãs posteriores traz o eloquente título "Dizer Sim à Vida") que, quando via um interno deixando de barbear-se e descuidando da higiene, protelando levantar-se de manhã, apesar do espancamento, e —principalmente— fumando seu pequeno capital de cigarros, em vez de poupá-los e trocá-los por pão, sabia que este havia desistido e se deixaria morrer .
Que comportamentos indicariam a mesma desistência diante da crise climática? Podemos arriscar alguns: tolerar a exploração de novos poços de petróleo sem questionamento? Eleger políticos descomprometidos com a questão ambiental? Priorizar o imediatismo sobre a sustentabilidade? Tudo isso tendo como pano de fundo a ideia de que a causa é impossível e a batalha está perdida.
Mas erros de avaliação são frequentes e podem ser trágicos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.