Na IA, possibilidades não são profecias e dúvidas não são certezas
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa
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A festa acaba em 2030? Dizem que sim. A festa, aqui, é a humanidade inteira. A limpeza, essa, será obra da inteligência artificial , cada vez mais autônoma, cada vez mais poderosa, cada vez mais letal.
A nós, pobres símios, sobram mil dias, mais coisa menos coisa. O que você pretende fazer com eles?
Antes de abandonar o trabalho, o casamento, a casa e a higiene, um aviso: pode não acontecer . Notícias do apocalipse não nasceram hoje. Muito menos o medo e a esperança que o apocalipse alimenta na alma dos homens.
Da esperança falarei a seguir. O medo é mais comum: todas as sociedades projetam no apocalipse a ameaça que mais as inquieta. E, nesse quesito, há uma diferença abissal entre o mundo pré e pós-industrial.
Da Antiguidade aos alvores da Idade Moderna, foi a Bíblia que marcou o compasso: os Quatro Cavaleiros poderiam aparecer a qualquer altura para devastar o mundo com invasões, guerras, fomes e pestes. A experiência empírica do homem antigo e medieval só confirmava esse horizonte deprimente.
A Revolução Industrial expandiu o temor por via da técnica: sim, as guerras, as fomes e as pestes continuaram a pairar sobre o nosso destino, mas as máquinas tomaram conta do filme até os nossos dias.
Do holocausto nuclear aos bugs informáticos; do aquecimento global (antropogênico, claro) à inteligência artificial, os nossos apocalipses são incomparavelmente mais sofisticados que os temores primitivos dos antecessores.
Mas o apocalipse não desperta apenas medo. Existe esperança nesse momento revelador. Os Quatro Cavaleiros antecipam a Nova Jerusalém —uma promessa tão poderosa que, na Idade Média, alimentou o frenesi de movimentos milenaristas dispostos a purificar o mundo para apressar o reino dos céus.
E quando o reino deixou de ser dos céus, passou por vezes a ser do proletariado: o apocalipse capitalista, que Marx profetizou e Lênin cumpriu, seria o primeiro passo para uma sociedade sem classes. Foi, de fato, o fim do mundo —para 100 milhões de almas.
Mesmo hoje, por entre os temores da inteligência artificial, não faltam apocalípticos que aguardam a aceleração final da tecnologia rumo a um futuro pós-humano.
Nos últimos tempos, tenho lido com interesse —um interesse clínico, entenda— os textos de Nick Land , um dos nomes centrais do chamado "iluminismo das trevas" e influência no Vale do Silício. A salvação do mundo, para ele, não está em frear os excessos da máquina tecnocapitalista.
Pelo contrário: a sua "sede de colapso" só pode ser saciada pela aceleração das forças destrutivas e criativas do próprio capitalismo. A superação do homem pela máquina é um dos cenários possíveis e desejáveis.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.