‘O brasileiro não é careta, e sim o que é oferecido a ele’, diz Karim Aïnouz sobre seu filme mais ousado
Depois de comover plateias do Brasil e mundo com Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006) e A Vida Invisível (2019), entre outros títulos de renome, o cearense Karim Aïnouz agora está consagrado o suficiente para ousar e incomodar, vide a estreia desta quinta-feira, 15: Rosebush Pruning .
Na sátira pungente, uma família de americanos abastados se corrói de dentro para fora quando o filho mais velho, Jack (Jamie Bell) se apaixona pela guitarrista Martha (Elle Fanning) e ameaça deixar o lar, desequilibrando uma dinâmica alicerçada em uma série de abusos escandalosos, que passam por tabus que vão do incesto à gerontofilia.
Nem o elenco estrelado — com Pamela Anderson, Riley Keough, Callum Turner, Lukas Gage e Tracy Letts — foi o bastante para garantir a aclamação universal da crítica do Festival de Berlim, parte considerável da qual considerou a temática indigesta.
No Brasil — terra da chanchada e de Nelson Rodrigues —, o cineasta espera recepção mais calorosa: O filme parte de uma dinâmica incestuosa entre quatro irmãos que surge após anos de isolamento e abuso patriarcal em uma mansão na Espanha.
Por que quis tocar neste tabu, que é um dos mais espinhosos? Me interessei em pensar como o abuso de poder deforma tanto o polo ativo quanto aquele que está sendo abusado, especialmente no cerne de uma família.
Estas personagens são parcialmente metáforas para o mundo em que vivemos hoje.
A forma como o pai subjuga a mãe e depois os filhos espelha como o acúmulo de capital transforma pessoas em monstros insaciáveis, que engolem quem está em volta.
Também me interessei em como poderia retratar isso, e optei por adotar um certo senso de humor, o que pode até parecer paradoxal, mas acredito que o absurdo magnetize o espectador.
Continua após a publicidade Por esse e outros elementos, o filme está muito longe do consenso, o que vai na contramão da aclamação de talentos brasileiros que têm dominado a atenção do público nos últimos anos, vide o êxito de Walter Salles e Kleber Mendonça Filho nas premiações internacionais.
Na sua visão, qual o valor de ser um diretor controverso? Tem algo no meu trabalho que faço há algumas décadas — e acho que sei fazer direito —, que é despertar a empatia do espectador pelas personagens.
Agora, eu estava muito mais interessado em adentrar um novo terreno.
Quando comecei a pensar nesse filme, vieram à mente os primeiros filmes de Pedro Almodóvar, que tinham um senso de humor ácido e uma irreverência muito próprios.
Nunca dirigi algo que tenha dividido tanto a crítica e o público, mas queria explorar esse terreno desconhecido e tinha muita vontade de assombrar o espectador, sem estabelecer apenas uma relação de afeto.
O desconforto é o que sinto todos os dias quando acordo e olho para as notícias do mundo.
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