Violência política de gênero tenta calar mulheres na disputa por poder
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
A violência política de gênero não é um mero efeito colateral da disputa eleitoral, é a estratégia deliberada para impedir que quem vive na pele a opressão tenha poder para desmontá-la. Ter mulheres no Legislativo e no Executivo não é uma pauta identitária vazia, é a diferença entre leis que protegem as mulheres e leis que as criminalizam, entre orçamentos que financiam creches e políticas de combate ao feminicídio e aqueles que os ignoram.
Num momento em que os direitos reprodutivos são cerceados, a licença-maternidade é desidratada e o feminicídio bate recordes históricos, ocupar esses cargos é um ato de soberania e luta sobre a própria vida. Manter mulheres, especialmente indígenas, negras e periféricas, fora das mesas de negociação não é um acaso do jogo político. É delineado para que os retrocessos avancem sem freio, porque, como Marina e Neidinha comprovam, o sistema prefere agredir e anular a voz feminina a ter que encará-la frente a frente no poder.
Os casos de Neidinha Suruí e Marina Silva não são exceções. São o diagnóstico de um sistema político que trata a mulher como corpo estranho. Uma foi anulada pela burocracia partidária, a outra, agarrada fisicamente em plena via pública. É a mesma engrenagem: uma violência institucional, outra explícita, mas ambas com o mesmo objetivo de silenciar, constranger e excluir.
Neste mês, Neidinha viu sua candidatura ao Senado ser rasgada pelo PSB após a executiva nacional dissolver o diretório estadual de Rondônia, por se recusar a apoiar Expedito Netto (PT), um político que, segundo ela, vota contra o meio ambiente e foi a favor do impeachment de Dilma. A violência aqui é fria, burocrática, e vem de dentro do próprio campo progressista. A mensagem é de que a vontade de uma mulher indígena não vale o papel da convenção que a aclamou. Mas Neidinha não se acovardou, recorreu à justiça e até o momento segue na disputa.
Já Marina Silva tem sido alvo de uma escalada que resultou no dia 17 de agosto, durante a caminhada de Haddad em São Paulo. Um homem desconhecido a agarrou pelo ombro e pela barriga com violência, gritou ofensas e foi contido por assessores. Ela, que se recupera de uma fratura na coluna, precisou se abrigar em uma loja. Não houve debate, não houve argumento. Apenas uma mão no corpo da candidata para dizer: "você não pertence aqui". Simone Tebet foi direta: por que o ataque não foi com Haddad? Porque foi com uma mulher.
A violência contra Marina no último domingo é a materialização física do que já vinha sendo dito nos plenários, quando senadores declararam publicamente que precisavam de "tolerância para não enforcá-la". A fala se tornou ato. E o agressor, mesmo sob câmeras e testemunhas, segue solto e não identificado.
O que une Neidinha e Marina é o mesmo fio condutor da misoginia estrutural: a primeira foi barrada nos bastidores porque não aceitou ser submissa à política tradicional e a segunda foi atacada nas ruas porque ousa ser ministra, ambas ambientalistas e mulheres na linha de frente.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.