Vorcaro bancou o tarifaço contra o Brasil montado no Dark Horse?
Apesar de as quebras de sigilo até aqui sugerirem que o ministro André Mendonça gastou sua energia para buscar informações sobre o adversário Alexandre de Moraes, sobrando pouca para investigar o aliado Flávio Bolsonaro por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, o que foi revelado até agora reforça as suspeitas de que milhões transferidos por Daniel Vorcaro a pedido do senador tiveram um fim ainda menos nobre do que o filme Dark Horse.
Flávio solicitou (e cobrou, e cobrou, e cobrou...) R$ 134 milhões do dono do Master — dinheiro que até um suricato desatento sabe que não pode ser chamado de "privado", uma vez que o Master mamou aposentadorias de servidores públicos e grana do Banco de Brasília. É dinheiro público — e sem a necessidade chata de prestação de contas da Lei Rouanet.
Enquanto o deputado Mario Frias (PL-SP) e Karina Gama, dona da produtora do filme, recebiam recursos de outras fontes nacionais — a Polícia Federal investiga o desvio de emendas parlamentares, ou seja, mais dinheiro público — para que o filme fosse rodado no Brasil, pelo menos R$ 70 milhões foram enviados aos Estados Unidos por meio do fundo Havengate, sob a tutela do advogado migratório de Eduardo Bolsonaro.
A Procuradoria-Geral da República aponta que o ex-deputado, que está em autoexílio no Texas, orientava a gestão desses recursos. E a PF investiga se a grana foi usada para manter as atividades dele enquanto conspirava junto ao governo Donald Trump. Isso — segundo afirmou o próprio deputado na época — ajudou a estabelecer o primeiro tarifaço contra o Brasil no ano passado.
Em outras palavras: confirmado que a grana manteve Eduardo enquanto ele tentava barrar o julgamento e a condenação de Jair por tentativa de golpe, podem-se somar a coação no curso do processo e, por que não, a traição ao rol de investigações envolvendo Flávio por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. É um belo currículo para um pretendente à Presidência da República.
Sempre que é confrontado sobre o cascalho do Vorcaro, Flávio Bolsonaro diz que a produtora Go Up já fez uma perícia privada e que estava tudo ok. Mentira. Por exemplo, Artur Rodrigues e Amanda Rossi, no UOL, apontam hoje o contrário: a ação da PF identificou conflitos em relação ao volume de recursos que teria voltado do exterior para o Brasil para a execução do filme. Traduzindo: o boteco da esquina tem contas mais redondas e transparentes do que as de Dark Horse.
Natália Portinari, Cézar Feitoza, Artur Rodrigues e Fabio Serapião, também no UOL , revelam que o braço da produtora de Dark Horse nos EUA se recusou a entregar às autoridades brasileiras os documentos contábeis e bancários da empresa, mantendo sob sigilo informações relativas a 72% do custo da produção do filme. Basicamente, exige-se uma ordem de um juiz norte-americano. Para tanto, precisaríamos que o STF fizesse esse pedido. Mas Mendonça só tem olhos para Moraes.
Outra dúvida é se toda a informação coletada foi realmente divulgada por Mendonça ou se dados apurados em diligências da PF ainda em curso não vieram a público sob a justificativa de não atrapalhar as investigações.
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