Crítica | ‘Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte’ faz das franquias de TERROR uma autópsia cultural
Há algo deliciosamente contraditório no Festival de Cannes abrir sua seção Um Certo Olhar com um filme chamado Acampamento Miasma: Adolescência , Sexo e Morte (Teenager Sex and Death at Camp Miasma). O título parece saído diretamente de uma locadora mofada dos anos 1980, daqueles VHS de capa neon cuja promessa era sempre mais ousada do que o próprio conteúdo.
O novo filme de Jane Schoenbrun , embora pareça evocar essa época do slasher chamado de filme B, com sua cena inicial de jatos eufóricos de sangue, tem um projeto mais audacioso. Trata-se de um slasher metalinguístico que ama profundamente o gênero ao mesmo tempo em que o disseca sem misericórdia.
Desde os primeiros minutos, Schoenbrun deixa claro que seu interesse não está apenas no horror, mas na memória cultural do horror. O prólogo recapitula a trajetória da franquia fictícia Miasma: o sucesso inesperado do original, a avalanche de continuações cada vez mais absurdas, a degradação estética típica das franquias exploradas até o esgotamento, o fracasso comercial inevitável, a humilhação do Framboesa de Ouro.
A diretora entende perfeitamente o ciclo industrial do cinema de gênero: como um produto nasce de uma pulsão criativa e termina convertido em algoritmo corporativo, vide o aclamado Jogos Mortais ( Saw ), de James Wan , e suas intermináveis sequências sem lógica. É um começo hilário justamente porque se assemelha à realidade.
Dada a ambientação metalinguística, a narrativa acompanha uma jovem roteirista não-binária Kris ( Hannah Einbinder ) obcecada pela saga, determinada a realizar um reboot “definitivo”. Para isso, ela viaja até o interior para convencer Billy, a atriz do primeiro Miasma , a retornar ao papel que a transformou na primeira final girl da franquia. Vivida com melancolia elegante por Gillian Anderson , Billy carrega no rosto o peso de alguém que passou três décadas aprisionada por uma imagem cultural que nunca lhe pertenceu inteiramente.
A dinâmica entre ela e a protagonista funciona como o coração emocional do filme: duas gerações tentando entender o que significa amar uma obra construída sobre estruturas violentas. Dentro dessa proposta, o roteiro encontra sua melhor camada. Em vez de simplesmente condenar os slashers dos anos 1980 por seus vícios machistas e homofóbicos, Jane Schoenbrun tenta compreender como esses códigos foram naturalizados por décadas até se tornarem invisíveis.
Acampamento Miasma: Adolescência , Sexo e Morte aponta diretamente para aquilo que antes era aceito como parte da diversão: a objetificação feminina, a punição moral do desejo, os estereótipos queer transformados em piada, e pergunta o que significa revisitar essas imagens hoje sem reproduzi-las. Não há didatismo panfletário aqui; existe, antes, um desconforto constante e uma sátira cômica à nossa aceitação sem questionamento.
Uma das melhores cenas nem sequer envolve assassinatos, mas uma reunião de produção via Zoom.
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