A mulher de César e o julgamento de Alexandre de Moraes
“Infeliz do país que não tem heróis!” – comenta Andrea, discípulo de Galileu Galilei na peça A Vida de Galileu, escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht na década de 1930.
Ele estava decepcionado com seu mestre, que cedera à pressão da Inquisição e renegara publicamente suas descobertas científicas para salvar a própria vida.
Ao que responde Galileu: “Não.
Infeliz do país que precisa de heróis.” Uma sociedade madura e saudável deve funcionar com base em instituições fortes, leis justas e na ação coletiva dos cidadãos.
Se um povo precisa de um “salvador da pátria” para resolver seus problemas, é sinal de que o sistema social e político falhou.
A dependência de heróis abre portas para o autoritarismo, já que as pessoas tendem a terceirizar suas responsabilidades para um único líder.
Nascido em São Paulo em 13 de dezembro de 1968 — dia em que a ditadura militar promulgou o Ato Institucional nº 5, suprimindo o que ainda restava de democracia no país —, Alexandre de Moraes, professor de Direito da Universidade de São Paulo, ganhou projeção nacional ao tornar-se ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) um ano antes da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência.
Ninguém mais do que ele, entre seus colegas, arriscou-se nos anos seguintes a combater os arreganhos de um mandatário com vocação de ditador.
Ninguém mais do que ele foi decisivo para a condenação à prisão dos que tentaram abolir a democracia por meio de um golpe de Estado.
Desde então, merecidamente ou não, passou a ser visto como herói por uma parcela expressiva dos brasileiros.
Sinto muito ao constatar que a agonia de Moraes como herói sofreu uma grave inflexão a 33 dias da eleição que poderá marcar o retorno ao poder dos que carecem de compromisso com a democracia, restabelecida há 41 anos.
Se quiser salvar sua reputação, já fortemente abalada por sucessivos atos repletos de soberba, o Supremo será obrigado a livrar-se dele.
Ou o faz, ou se deixa arrastar para o lamaçal.
Não dá mais para aturar quem foi incapaz de resistir à sedução de um crápula como Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, acusado de pagar regiamente favores em troca do acesso ao dinheiro público.
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