Vai ter que alagar o STF para a eleição falar de clima?
São Paulo registrou a maior quantidade chuva acumulada no Brasil em 24 horas, entre sexta e sábado, e este setembro (que não está nem na metade) já se tornou um dos meses mais chuvosos da história. Em todo o Brasil, alagamentos, deslizamentos de terra, rodovias interditadas, aulas canceladas, granizo, tornados (tornados!), casas e prédios desabando e gente morrendo desenham o nosso novo normal.
O clima mudou, ou melhor, mudamos o clima, e os eventos climáticos extremos, com ou sem o Super El Niño, estão lascando nossa existência. Deveria ser pauta prioritária neste período eleitoral debater quais as propostas dos candidatos para adaptar o país a uma era em que o termostato do planeta foi ajustado para "Gratinar os Idiotas". E para mitigar os impactos das desgraças que já estão vindo.
Mas, ao que tudo indica, a única forma disso acontecer é se chover dentro do STF e molhar as togas dos ministros. Estamos a menos de um mês das eleições e, como ja disse aqui um rosário de vezes, outras pautas de interesse nacional estão soterradas. Como muitas vítimas Brasil afora.
O único momento em que "aquecimento global" entrou no pleito deste ano foi quando o senador Flávio Bolsonaro se negou a reconhecer a sua existência em sabatina no Jornal Nacional. Como adaptar o país e mitigar os efeitos da mudança do clima se um governante acha que ela não existe, eu não sei. É como pedir a um ateu para construir uma igreja para Deus.
No Brasil, a letalidade dos ventos, da chuva e da lama vem sendo multiplicada pela incapacidade, incompetência ou má-fé de sucessivas gestões em municípios, estados e na União. Eventos climáticos extremos, que se repetiriam apenas ao longo de décadas, ocorrem no intervalo de um ano. O clima mudou, mas a ação dos governantes não o acompanhou. E isso mata.
Em 2024, mais de 180 pessoas morreram nas enchentes que atingiram 478 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul. Em 2023, São Paulo estava velando os corpos de 64 mortos na Vila Sahy, em São Sebastião (SP). Em 2022, mais de 240 pessoas morreram com os deslizamentos de terra em Petrópolis (RJ). E por aí vai.
E a especulação imobiliária, que empurra os mais pobres para os lugares mais vulneráveis, também mata em Santa Catarina, na Bahia, em Minas Gerais... Sim, a tragédia climática fica muito pior com a pornográfica desigualdade social. Deslizamento de terra não acontece nos Jardins e na orla do Leblon.
Uma parcela estúpida, mas barulhenta, da sociedade defende com unhas e dentes que não existe aquecimento global e, consequentemente, alteração do clima. Pesquisa Datafolha de 2025 aponta que o total de brasileiros que afirma que as mudanças climáticas não são um risco cresceu de 5% para 9% em um ano. Ainda são poucos, mas sabemos que a estupidez viraliza rápido.
Políticos costumam agir somente diante dos estragos causados por desastres, como se tratassem de forma paliativa um paciente desenganado. Colocam capacete e bota para visitar os locais, fazem sobrevoos de helicóptero com beicinho de preocupação.
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