A vida íntima do escritor
Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras
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Muitos amigos acham que eu vivo uma rotina de glamour. Que, ao viajar para feiras de literatura , me hospedo em suítes de hotéis charmosos, onde largo minha mala para ir à piscina ou para fazer turismo ao lado de escritores famosos.
Às vezes, até é assim. Bem às vezes. Como diria Milton Nascimento , "todo artista tem de ir aonde o povo está." E, geralmente, o povo está à distância de um voo e alguns quilômetros de estrada, em cidades pequenas, médias e interessantes, mas não muito agitadas, onde aproveito para fazer o que quase nunca consigo.
Ao entrar em quartos de hotéis, largo a mala e capoto na cama, dormindo o sono de quem não tem chance de cochilar em casa. Ou tiro o notebook da mochila para escrever, realizada por finalmente ter um teto de hotel todo meu, onde ninguém irá bater na porta dizendo: o que tem de lanche?
Não sou a única. Escritores e, principalmente, escritoras, relatam que aproveitam seus cartões de "não perturbe" para avançar na escrita de seus livros. Esses dias perguntei a uma amiga se ela não estava cansada de participar de tantas feiras literárias. Pelo contrário, me disse, cansativo era ficar em casa com as crianças. É por causa das feiras que vem conseguindo escrever seu novo romance, um cadinho em cada hotel.
Outros aproveitam o sossego para ler. Ou passear com outros escritores, que encontramos já desgrenhados no café da manhã, em mesas que vão crescendo, com fofocas do meio literário e desabafos como: "Menti pra editora que estava acabando meu livro, mas ainda não passei da página 20."
À noite, os encontros costumam ser mais agradáveis, já que regados a vinho e música, o que impede os inconvenientes de contarem em detalhes a história do romance que estão escrevendo. É depois da segunda taça que nos decepcionamos com alguns —aqueles que só sabem falar de si— e nos encantamos com outros; mais cantantes ou dançantes, que não se levam tão a sério.
Não sei de que grupo sou, mas me esforço para fazer parte do segundo. Nessas viagens, gosto de largar meu corpo sobre as colchas de florezinhas. Escrever comendo amendoins de frigobar. Adejar pelas imediações. Beber com escritores que moram do outro lado do país ou do planeta e eu nunca encontraria de outra maneira. Acordar de ressaca, abrir a janela e me surpreender ao ver que estou... Onde tô mesmo?
A espanhola Rosa Montero costuma fotografar a vista dos quartos em que se hospeda. Ali percebemos que nem um escritor conhecido mundialmente escapa de abrir a janela e dar com um paredão. Ou com um canto triste, onde se amontoam vasos com plantas murchas.
A grande vista dessas viagens não é acessada pela janela, mas pelos joelhos que se esticam por trás da mesa de autógrafos e avistam a fila de leitores com seus livros na mão. São pessoas que nos esperam por meses para conseguir uma canetada na primeira página e uma foto. Para falar o quanto gostaram de tal ou tal narrativa. Às vezes, contam histórias íntimas. Trazem presentes.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.