Migrantes expulsos para a África: um mergulho na engrenagem da administração Trump
Desde o retorno de Donald Trump ao poder, mais de 25 mil pessoas foram expulsas dos Estados Unidos para países terceiros com os quais muitas vezes não têm qualquer vínculo, às vezes em outro continente que não o de origem. Entre elas, centenas foram enviadas para a África. Pelo menos 12 países africanos recebem atualmente essas pessoas expulsas: vietnamitas em Essuatíni (antiga Suazilândia), colombianos na República Democrática do Congo, guineenses em Gana. Durante seis meses, a RFI investigou, como parte de um consórcio de 24 veículos de comunicação internacionais coordenado pelo Forbidden Stories, para entender como esse sistema funciona e documentar a trajetória dessas pessoas expulsas. Uma vez no continente africano, algumas são presas sem decisão judicial; outras ficam retidas, sem um status jurídico claro nem perspectiva. E, em vários casos documentados por nossa investigação, o país terceiro é apenas uma etapa antes do retorno ao país de origem, para onde os Estados Unidos não poderiam enviá-las diretamente.
Quando pisa pela primeira vez na pista do aeroporto de Bangui, na República Centro-Africana, Nika*, uma iraniana de 32 anos, está em choque.
É noite. Estamos em 12 de junho de 2026. Ela acaba de passar 12 horas em um avião especialmente fretado pelos serviços americanos de imigração (Immigration and Customs Enforcement, ICE) para sua expulsão, ao lado de cerca de dez outras pessoas: sírios, georgianos, afegãos e iraquianos.
Durante quase 20 horas de voo, suas pernas permaneceram presas e suas mãos algemadas a uma corrente fixada em torno da cintura, inclusive quando tentou comer.
No aeroporto de Bangui, os agentes que a recebem se comunicam com ela por gestos. Nenhum fala sua língua. “Eu não entendia nada do que estava acontecendo comigo. Perguntei a mim mesma se ainda seria enviada para uma prisão.”
Nika só descobriu seu destino algumas horas antes, durante o voo, ao olhar para a tela de navegação: a República Centro-Africana. Um país sobre o qual ela não sabe nada e para o qual os Estados Unidos desaconselham viagens de seus cidadãos , especialmente devido ao risco de “sequestro ou terrorismo”.
A jovem conta que passou parte da juventude participando de manifestações contra o regime iraniano. Segundo ela, seu ativismo fez dela um alvo da Guarda Revolucionária. Nika fugiu do Irã em março de 2024, enquanto prosseguia a repressão ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade” e a ONU acusava as autoridades iranianas de crimes contra a humanidade. Ela se refugiou nos Estados Unidos, mas foi presa. Em maio deste ano, depois de 14 meses de detenção, acabava de ser libertada do Richwood Correctional Center, uma das prisões transformadas pelo ICE em centros de detenção para migrantes.
Seu pedido de asilo ainda estava sendo analisado. Mas ela já contava com uma proteção que impedia os Estados Unidos de enviá-la de volta ao Irã: o withholding of removal , ou “suspensão da remoção”. Um juiz americano havia reconhecido que ela correria risco de perseguição caso retornasse ao Irã. Ela acabara de se instalar na casa de seu tio, em Los Angeles.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.rfi.fr — o conteúdo pertence a RFI Brasil.