Por que a Petrobras está comprando gás dos EUA por 20 anos
A decisão da Petrobras de comprar gás natural liquefeito dos Estados Unidos pelos próximos vinte anos parece, à primeira vista, contraditória.
O Brasil vem batendo recordes na produção de gás, e o próprio planejamento oficial prevê forte expansão da oferta doméstica ao longo da próxima década.
Ainda assim, a estatal resolveu garantir 0,8 milhão de toneladas de GNL (Gás Natural Liquefeito) por ano da americana Sempra Infrastructure durante duas décadas.
A explicação está menos numa expectativa de falta permanente de gás e mais na compra de previsibilidade.
A demanda brasileira pelo combustível varia fortemente de acordo com as chuvas.
Quando os reservatórios das hidrelétricas estão baixos, aumenta o despacho das termelétricas e, com ele, a necessidade de GNL.
Historicamente, o Brasil cobriu boa parte desses picos recorrendo ao mercado spot — justamente onde os preços podem disparar quando vários países precisam comprar ao mesmo tempo.
A crise hídrica de 2021 mostrou o risco: as importações de GNL da Petrobras mais que triplicaram naquele ano, chegando à média de 23 milhões de metros cúbicos por dia.
Há também uma segunda incerteza entrando na conta: a Bolívia.
A produção do país vizinho vem caindo, o que levou Petrobras e YPFB a rever sucessivamente o contrato de fornecimento pelo Gasbol.
O acordo atual pode se esgotar entre 2028 e 2029.
No Plano Decenal de Expansão de Energia, a EPE já prevê que o gás recebido pelo gasoduto caia de 13 milhões de metros cúbicos por dia para 5 milhões a partir de 2030.
Nem mesmo o avanço do pré-sal elimina o problema.
Em julho, a produção brasileira de gás atingiu 214,97 milhões de metros cúbicos por dia, 12,6% acima de um ano antes.
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