O Poropopó é o estado de espírito que melhor traduz a alma corintiana
Eu já estive dentro de um Poropopó misturada à Fiel. Foi no Pacaembu, quando, antes de uma partida, fui dar um oi a uma amiga que é da Gaviões. Eu não assistia aos jogos na parte da arquibancada em que a Gaviões ficava, mas naquele dia minha amiga me mandou uma mensagem dizendo que estava lá e eu quis ir dar um beijo nela. Enquanto andava pelos degraus de concreto tentando localizar minha amiga, fui abordada por rapaz que, sem pedir licença ou dar oi, passou o braço pelo meu ombro. Olhei assustada e pensando como poderia sair dali. Ele ignorou meu olhar, me segurou mais forte, me puxou mais perto e disse apenas "Poropopó!". E eu entendi que já não seria mais possível sair.
Ainda bem porque foi uma experiência psicodélica. Ficamos indo e vindo para lá e para cá por bastante tempo. Todos misturados dançando, pulando e cantando. Uma massa só, diluída no coletivo. Quando o Corinthians jogava no Pacaembu, o Poropopó estava reservado ao canto das organizadas. Hoje, ele invadiu os demais setores - com alguma reserva dos assentos mais caros que, por algum motivo (sabemos quais, mas não cabem aqui), ainda vacilam para dançar o Poropopó com a massa.
Vídeos do Poropopó que deixou estarrecida a torcida do Rosário durante o jogo da Libertadores na semana passada circulam pelas Redes sociais. Os argentinos pulavam e cantavam quando foram engolidos pelo ritual da Fiel. Calaram e olharam estarrecidos e arrebatados para o que estavam vendo.
A alma dessa torcida é traduzida com honestidade nesse ritual poropopento alucinado e delirante que ela puxa durante as partidas. Os adversários sentem, o time sente, a torcida se alimenta dela mesma para aumentar o volume. Não tem nada assim no mundo. Toda torcida é bonita em si mesma, claro. Um estádio lotado sempre inaugura uma dimensão do sagrado. Em qualquer canto e em qualquer divisão. Mas nem por isso podemos deixar de reconhecer a grandiosidade do que faz a Fiel. O Poropopó é um imenso encontro de almas e de amor. Ele faz tremer as estruturas - literalmente. Que desperdício esse time ser gerenciado há décadas por grupos tão incompetentes; o Corinthians não é desse planeta. Salve, meu camarada Elias Jabbour: seu time é um delírio.
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