A solidão da ministra Carmen Lucia
A ministra Carmen Lucia pediu desculpas ao Brasil durante a vergonhosa sessão em que o STF expôs parte de suas vísceras à nação. Explicou: disse que deveria ter feito mais, que gostaria de ter feito mais, que a função da justiça é nos proteger e não nos confundir. A ministra está certa. Esse STF, com ela incluída, apoiou os abusos da Lava Jato, apoiou um golpe de estado, apoiou (até mudar de ideia) a contra-revolução fascista que está em curso. As desculpas são devidas e a ministra não está fora desse jogo, por mais que gostemos de suas posições atuais. A ministra Carmen Lucia aceitou jogar o jogo dos homens para sobreviver - como muitas de nós fazemos todos os dias.
A ministra Carmen Lucia é a única mulher na atual composição do STF. O espetáculo masculinista encenado no dia 15 de setembro, com homens se atacando e se lambuzando de suas autoridades, é um ritual do patriarcado. A ministra estava deslocada, como estamos todas nós em espaços de poder - ou em qualquer outro espaço, a bem da verdade. Homens falam entre si e, do mesmo modo, compartilham poder. As raras mulheres que chegam lá são constantemente colocadas em seus lugares. A linguagem não nos inclui. A vulgaridade não nos inclui. O riso não nos inclui.
O que aconteceria com o STF se ele fosse composto por uma maioria de mulheres?
Mulheres cis, brancas, negras, trans, lésbicas, travestis. Seis ministras e cinco ministros. Como agiria um STF assim formado? O poder continuaria a ser distribuído em surubas com "novinhas" e regadas a uísques cujas garrafas custam tanto quanto um studio na planta? Imaginamos que não. Imaginamos que, com a nova distribuição, teríamos uma nova suprema corte: mais justa, mais igualitária, menos engaludada, menos vulgar, menos egoísta, menos vaidosa, menos confrontadora, menos descontrolada, menos chiliquenta, menos despreparada.
O espetáculo deplorável que assistimos ontem dentro do STF tem gênero, raça e sexualidade. É branco, masculino e heteronormativo. Não queremos mais viver nesse mundo. Essa é a identidade que está nos destruindo e devastando o planeta. Estamos dizendo chega. Basta. Cansamos. Ninguém aguenta mais. Hora de criar uma nova sociedade. Mais colaborativa, mais solidária, mais horizontal. Mais feminina.
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