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Flávio Bolsonaro mostra que não saber perder é hereditário

UOL Notícias ·
Flávio Bolsonaro mostra que não saber perder é hereditário

É de onde menos se espera que não vem nada mesmo. Se você acreditou em Flávio quando ele respondia, em entrevistas e sabatinas, que reconheceria o resultado da eleição, é porque perdeu as últimas temporadas desta grande sitcom chamada Os Bolsonaros

Após perder a disputa pela Presidência da República para Lula, na noite deste domingo, o senador disse que pedirá à Justiça a anulação da eleição. O motivo é a extensão do horário de votação em duas horas, determinada pelo Supremo Tribunal Federal hoje. Flávio criticou Cristiano Zanin, autor da decisão, sugerindo que foi coisa combinada com o petista. Coisa de mau perdedor.

Em primeiro lugar, sua própria campanha também pediu o adiamento do horário de votação, alegando que as fortes chuvas no Sul do país haviam atrapalhado eleitores. E a campanha de Lula pediu o mesmo devido à falta de ônibus em cidades como Salvador e São Paulo, o que prejudicou eleitores mais pobres que, potencialmente, votariam em Lula. Detalhe importante: Salvador e São Paulo são administradas por aliados de Flávio.

Em sua decisão, Zanin concedeu a liminar em nome das duas campanhas. Flávio esqueceu-se disso no seu discurso indignado. Tampouco se lembrou de que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, responsável por um rosário de decisões favoráveis a ele ao longo do processo eleitoral, reconheceu a vitória de Lula e disse que o adiamento não havia alterado o resultado da eleição. O TSE, aliás, vai divulgar, nesta segunda (26), quantos votos foram computados nesse período de extensão, mas técnicos adiantaram que foi quase nada porque a maioria das seções já haviam fechado.

A diferença entre Flávio e Lula foi de mais de 4,43 milhões de votos, bem maior que aquela entre Lula e seu pai, Jair, em 2022.

Sejamos francos. O senador Flávio Bolsonaro encontrou uma desculpa. Se alguém poderia reclamar de uma grande quantidade de votos que deixou de receber por interferência indevida, esse alguém seria Lula, uma vez que a votação dele seria ainda mais elástica em São Paulo e em Salvador caso não tivesse ocorrido o bloqueio de ônibus nessas cidades.

Flávio usou a extensão do horário, mas, se isso não tivesse ocorrido, culparia o azul do céu, a textura da terra, o oxigênio no ar.

A chance de a reivindicação dele prosperar no Tribunal Superior Eleitoral é zero. Ele fez esse discurso para sua militância, para mantê-la engajada, para que persiga mais uma teoria da conspiração. Também vai tentar usar isso para evitar o reconhecimento da eleição pelos Estados Unidos de Donald Trump e pela Argentina de Javier Milei.

Com essas declarações, ele desmente analistas, empresários, e jornalistas que tentaram vendê-lo como o Bolsonaro moderado. O senador saiu da eleição com 59,8 milhões de votos e, naturalmente, pode pleitear a posição de líder da oposição. Mas resolveu sair menor, lembrando o ex-presidente que, após perder, preferiu não esperar quatro anos para tentar novamente o Planalto, mas tentou um golpe de Estado.

O fruto nunca cai muito longe do pé. Filho de peixe, peixinho é. Que sai aos seus não degenera.

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