O agro vai plantar sem saber o imposto que pagará na colheita
No Ensaio sobre a Cegueira , José Saramago imagina uma cidade atingida por uma epidemia inexplicável: as pessoas cegam, uma a uma, sem causa e sem aviso.
Mas a cegueira de Saramago tem uma particularidade: ninguém mergulha na escuridão.
Os cegos veem tudo branco, uma claridade leitosa e sem fim.
Os primeiros contaminados são trancados num manicômio, onde a comida escasseia e a civilização se desfaz.
Entre eles está a mulher do médico, a única que continua enxergando — e que, por enxergar, carrega o fardo de testemunhar tudo.
A ironia que sustenta o romance: não é a falta de luz que cega.
É o excesso.
O agronegócio brasileiro vive hoje sua cegueira branca.
Reparem na luminosidade dos números: safra de grãos na casa de 360 milhões de toneladas, exportações agropecuárias em alta, a agropecuária como o setor que mais cresceu no PIB do segundo trimestre.
Quem olha essa fotografia vê prosperidade.
Agora reparem no que a mesma luz ofusca: o Cepea, centro de estudos da Esalq/USP e a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) projetam queda de 7,8% no PIB do agronegócio em 2026, com retração de 13,7% no ramo agrícola e de 21% na produção primária — o pedaço da conta que fica com quem planta.
Não há contradição entre as duas fotografias: uma régua mede o volume que sai da terra; a outra, a economia de toda a cadeia.
Produzir mais não significa ganhar mais.
Me acompanhem na anatomia do problema, começando pelo que o produtor não controla.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em veja.abril.com.br — o conteúdo pertence a Veja.