Após Flávio Bolsonaro liderar o 1º turno, focos de calor dobram na Amazônia
Ninguém precisou mandar, uma vez que o recado das urnas bastou. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula. Na semana seguinte, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais registrou 3.695 focos de calor na Amazônia Legal, quase o dobro dos 1.854 da semana anterior. O naco criminoso do setor rural leu o resultado como uma promessa e foi à floresta comemorar com fósforo. A correlação entre o fim do primeiro turno e o fogo foi destacada por Hélen Freitas, da Repórter Brasil , que viajou ao Sul do Pará para constatar o fogaréu.
O El Niño secou a mata e outubro é época de queimada, mas a seca explica o pavio, não quem risca o fósforo.
Ane Alencar, do Ipam, aponta focos em floresta e em terras públicas na margem do Amazonas em frente a Manaus, um indicativo de grilagem. E o ministro interino do Meio Ambiente João Paulo Capobianco falou em atuação criminosa, com focos dentro da floresta preservada. Fogo no meio da mata pública não escapou do pasto, foi colocado lá.
Não é o agronegócio como um todo, pois há fazendeiros perdendo cercas e gado para as chamas. É uma minoria de grileiros, especuladores de terra e garimpeiros que opera por cálculo: qual a chance de ser multado, embargado, preso? Com a família Bolsonaro de volta ao horizonte, a resposta ficou mais barata.
Eles se lembram bem. Jair chamou de mentira os dados do Inpe, atacou a "indústria da multa", esvaziou o Ibama e teve um ministro que defendia "passar a boiada". O desmatamento na Amazônia Legal passou de 13 mil km² em 2021, o maior em 15 anos, e o garimpo invadiu terras indígenas até produzir a tragédia Yanomami.
Em agosto de 2019, produtores de Novo Progresso organizaram o Dia do Fogo para mostrar serviço ao presidente. Pois foi em Novo Progresso, ao longo da mesma BR-163, que a Repórter Brasil encontrou fumaça todos os dias durante apuração in loco na semana passada. O governo federal investiga se há de novo uma ação coordenada.
Enquanto isso, nesta sexta, o Prodes mostrou que o desmatamento na Amazônia Legal caiu 42% entre agosto de 2025 e julho de 2026, chegando a 3.335 km², o menor nível desde 1988, quando a medição começou. Em quatro anos, a queda foi de 71,2%. Prova de que desmatamento não é destino, mas escolha política. Com fiscalização, cai. Com conivência, explode.
Só que o Prodes olha para trás. O fogo de outubro não está nessa conta e costuma ser etapa do roubo de terra: derruba, seca, queima, põe capim, põe boi, busca o título. O incêndio de hoje é o desmatamento de amanhã.
Os Kayapó das Terras Indígenas Menkragnoti e Baú entenderam. O cacique Bepdjô disse à Reporter Brasil que Flávio abrirá caminho a garimpeiros destruírem suas terras. Quem incendiou a floresta nas últimas duas semanas não esperou o segundo turno terminar. Já apostou no fogo.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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