Liberdade é poder exercer sua própria linguagem, diz a cineasta Paz Encina
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A cineasta paraguaia Paz Encina tinha apenas quatro anos quando começou a estudar violão clássico. Ela conta que sua primeira alfabetização se deu no campo da música.
"Eu não era como as crianças de hoje, que aprendem as vogais e as escrevem muito rapidamente. As primeiras coisas que li e escrevi foram notas musicais", diz a diretora.
Ao longo dos anos, essa formação foi responsável por imprimir uma estética particular à sua filmografia. Desde "Hamaca Paraguaya", de 2006, longa de estreia da diretora premiado na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes , a cineasta tem construído uma cinematografia em que perda, ausência e espera se materializam em narrativas minimalistas, marcadas pela coexistência de tempos e pela forte lida com a memória de seu país.
"A música me deu a métrica e também o senso de ritmo. Mas, acima de tudo, o que ela me deu foi a possibilidade de começar a escrever meus roteiros a partir do som", ela afirma.
Essa insubmissão aos formatos motiva a homenagem que Encina recebe, nesta terça (22), durante a 20ª Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte , a CineBH .
Além de um troféu pela sua trajetória, a cineasta vai ministrar uma masterclass e participar de sessões comentadas de três dos seus filmes —"Hamaca Paraguaya", "Exercícios de Memória", de 2016, e "Carta a um Velho Mestre", de 2024.
Para Cleber Eduardo, coordenador curatorial da CineBH, a homenagem a Encina está muito sintonizada com o tipo de cinema latino-americano que a mostra tem privilegiado nos últimos anos. O gesto também aponta para uma coincidência —o primeiro longa da diretora completa 20 anos no ano em que a mostra chega à sua 20ª edição.
"Ela é uma cineasta que faz filmes que realmente precisa fazer, o que tem muito a ver com nossa perspectiva de América Latina", ele diz.
"Os filmes estão neles [nesses cineastas], e eles estão em busca de uma forma para fazer esses filmes. Não estão apenas atrás de ideias [do que filmar]", afirma, reforçando que essa inventividade acompanha certa recusa ao que já circula nos principais festivais pelo mundo.
O primeiro longa de Encina, "Hamaca Paraguaya", rompeu um hiato de quase 30 anos da produção de longas no seu país . Na obra, um casal de fazendeiros espera o retorno do filho, que partiu para a Guerra do Chaco —contra a Bolívia, em 1935.
O filme é constituído de longos planos fixos , que observam as dinâmicas de trabalho e descanso do casal quase sempre à distância, em cenas permeadas pela fantasmagoria de diálogos que se referem tanto ao tempo vivido quanto ao tempo sonhado.
Encina diz que essa liberdade no trato com a forma também está diretamente relacionada ao contexto em que passou toda a sua infância e adolescência. Para ela, que nasceu em 1971, em meio às mais de três décadas da ditadura do paraguaio Alfredo Stroessner , o campo das imagens e sons tornou-se uma espécie de refúgio diante de um ambiente de repressão e violações dos direitos humanos .
"Para mim, a liberdade reside em poder exercer sua própria linguagem, sua própria maneira de ver e ouvir.
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