‘Morte e Vida Madalena’ é retrato bem-humorado de produção caótica e protagonista em crise
O cinema de Guto Parente ( Estranho Caminho ) sempre dialogou com o limite entre sonho e realidade, estabilidade e ruína.
Apaixonado pela ficção científica e pelo onírico, o diretor leva esses elementos para Morte e Vida Madalena , sua mais nova produção que chega aos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira, 17 de setembro.
Aqui, essa tensão se torna central: Madalena ( Noá Bonoba ) é uma produtora de cinema grávida que precisa lidar com o luto pela morte do pai e com a produção de um filme B de ficção científica prestes a desmoronar.
O que poderia ser apenas um exercício de metalinguagem se transforma em um retrato espirituoso e melancólico sobre os bastidores do cinema independente — seus improvisos, falhas e batalhas diárias —, revelando a persistência e a criatividade necessárias para seguir filmando e sobrevivendo.
Desde o título, o filme evoca Morte e Vida Severina , de João Cabral de Melo Neto , sugerindo uma travessia de sobrevivência e criação que atravessa o corpo e a alma da protagonista.
Madalena é uma mulher que precisa seguir em frente mesmo quando tudo à sua volta ameaça ruir.
Cada contratempo no set se converte em um teste de resistência, um rito de passagem que a obriga a redescobrir forças onde já não parecia haver nenhuma.
O cansaço, o desespero e o improviso se acumulam, mas também revelam a capacidade de transformar sonho em premonição e ruína em insistência.
O ato de filmar e continuar produzindo torna-se, assim, uma metáfora para a gestação — do filme e do filho —, como se as duas vidas que ela carrega dependessem uma da outra para existir.
O caos da produção espelha a desordem emocional da personagem, unindo criação artística e experiência pessoal em uma narrativa sobre persistir quando tudo parece desabar.
Parente encontra comédia e humanidade em cada percalço: na equipe desorganizada, no abandono do diretor, nos problemas que se acumulam no set.
Esse bom humor é o que sustenta o filme — um riso que brota da tensão e da persistência, celebrando o fazer cinema independente a partir de uma luta após a outra: conseguir financiamento, improvisar uma arma para uma cena, lidar com uma greve inesperada ou com os caprichos de uma equipe exausta e desmotivada.
Tudo parece prestes a desabar, mas é justamente dessa precariedade que Morte e Vida Madalena extrai sua vitalidade — como na sequência em animação em que Madalena confessa o que a levou a fazer cinema.
Parente transforma o caos e o sonho em energia, e a repetição do fracasso em resistência, uma forma de reafirmar que o cinema continua possível, mesmo quando tudo conspira contra ele.
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