Como um livro radical sobre virgem que se rebela contra o machismo alcançou prêmios
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A escritora búlgara Rene Karabash passou anos procurando uma boa história. Um dia, encontrou inspiração do outro lado dos Bálcãs, na Albânia .
Deparou-se com fotografias de virgens juradas , nome dado às mulheres que fazem um voto de castidade e passam a viver socialmente como homens em suas aldeias. Eram imagens de "mulheres andróginas" que "pareciam homens idosos", diz.
Tinha encontrado a história. "Decidi usar aquela situação radical para explorar as leis do patriarcado", conta. "Queria falar sobre como o masculino e o feminino se refletem nos nossos corpos."
O resultado foi seu romance de estreia, "Aquela que Restou", de 2018. O livro tocou leitores na Bulgária, onde Karabash recebeu o prêmio Elias Canetti, um dos mais prestigiosos do país.
Neste ano, a tradução para o inglês foi finalista do Prêmio Booker Internacional . Em meio a todas essas loas, o livro sai agora em português pela Ercolano, traduzido por Amélia Bonfim e Rada Gankova.
Karabash narra a história da jovem Bekia e suas tentativas de satisfazer o pai, que preferia ter tido um filho homem. Ela busca adotar os comportamentos socialmente esperados de um menino, mas sem sucesso.
A situação se complica com o casamento que a família arranja para ela. Para evitar o destino imposto pelas tradições do vilarejo, Bekia decide fazer um voto de castidade e tornar-se uma "ostáinitsa", ou seja, uma virgem jurada.
É uma prática antiga na região dos Bálcãs que permite que mulheres passem a ser tratadas como homens e gozem de direitos semelhantes a eles.
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Não se trata necessariamente de uma transição física, mas de assumir um papel social masculino, com os direitos e as responsabilidades associados ao homem naquela sociedade, como o de chefiar o lar.
Elas também passam a poder carregar armas e usar relógios de pulso, explica Karabash. "É um jeito de as mulheres, que não têm muitos direitos nessa sociedade, conquistarem alguma liberdade."
A prática não é comum e especialistas estimam que hoje existam apenas algumas dezenas de virgens juradas na Albânia. Mas a possibilidade entusiasmou Karabash, pois permitiu que ela explorasse, na literatura , temas que lhe interessavam há anos.
Um deles era, inclusive, pessoal. A autora cresceu em um vilarejo búlgaro com tradições conservadoras, em uma família na qual era conhecida a enorme frustração de seu avô, que não teve filhos homens.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.