A ética contra a moral
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Professor Ikerbasque (Fundação Basca para a Ciência) no Departamento de Filosofia da Universidade do País Basco (EHU), na Espanha
Existe uma diferença significativa, ainda que parcialmente apagada, entre moral e ética . Permitam-me tentar torná-la mais nítida. A moral é composta por um conjunto de regras e normas para o comportamento adequado; a ética é um modo de vida, uma maneira de existir.
Enquanto a moral é reguladora e prescritiva, a ética é um texto vivo que não pode ser escrito ou roteirizado de antemão, exceto como uma projeção de hábitos de ação mais ou menos previsíveis, ligados, como estão, a modos de habitação —de habitar o mundo. Por texto vivo, refiro-me à necessidade de estar atento ao contexto e às circunstâncias singulares da ação ética, algo que escapa à formalização e, portanto, à moral.
Mas é preciso ir além disso: a moral não é apenas um código de conduta positivo, pois seu formalismo é moldado pela negatividade em toda a sua extensão. É por isso que ela pode ser tão destrutiva, desde a degeneração —demasiado fácil— do preceito moral em um moralismo hipócrita dos autoproclamados "donos da verdade" até o princípio transcendental kantiano que prefere seguir a lei moral à sobrevivência contínua do mundo. (Em "A Paz Perpétua," Kant endossa entusiasticamente a máxima fiat iustitia et pereat mundus — que se faça justiça, ainda que o mundo pereça).
Como sistema de regras, qualquer economia moral emula e complementa sistemas científicos de classificação. A moral alimentar não é exceção: ela categoriza o que pode e o que não pode ser comido em sã consciência, onde começa e onde termina a senciência, o que é ou não respeitável nesta ou naquela criatura... Há sempre algum tipo de cálculo envolvido em considerações que dependem do congelamento e, de fato, do sepultamento de seres categorizados dentro dos limites mais ou menos arbitrários dessas categorias. Em suma, a moral é incompatível com a vida em si, com a vivacidade da vida.
Dito isso, a moral torna uma ordem social, econômica ou política violenta e injusta minimamente tolerável e, portanto, habitável, na medida em que cria pequenos nichos privados onde se pode buscar refúgio contra a barbárie vigente. O que a moral produz, por sua vez, são pronunciamentos de validade geral incrivelmente vácuos. Assim, a moral é um sistema de regras sem vida que sustenta uma aparência de vida no meio da devastação bárbara e massificada.
Tipicamente formais e ineficazes, os preceitos morais nos fazem sentir bem conosco mesmos ao mesmo tempo que mantêm intacto —ou até reforçam— o status quo, oferecendo uma válvula de escape controlada para nossa insatisfação com o estado de coisas vigente. Códigos morais progressistas podem prescrever respeito por humanos, animais, plantas, ecossistemas, etc., mas tal noção soará como palavra vazia: na melhor das hipóteses, um ideal inalcançável; na pior, uma lamentação teórica inútil.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.