Inédito no Brasil, primeiro romance de Annie Ernaux traz personagem fictícia e drama social
Há mais de cinco décadas, em 1974, Annie Ernaux publicava seu livro de estreia, Os armários vazios , que chega ao Brasil pela primeira vez nesta segunda-feira, 24, pela editora Fósforo.
Para além de ser a primeira obra da escritora que venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2022, o exemplar difere de todos os outros da francesa por se tratar de um romance em que a protagonista não é a própria autora.
A história gira em torno de Denise Lesur, uma universitária de 20 anos que narra em primeira pessoa acontecimentos de sua vida e memórias de infância.
Logo no início da trama, de 144 páginas, a jovem escreve que está grávida e na casa de uma “fazedora de anjos”, nome dado a mulheres que ajudavam outras a realizar abortos seguros na França, uma vez que a prática só foi descriminalizada no país em 1975, ano seguinte ao da publicação.
Logo de cara, os leitores mais assíduos de Ernaux podem associar o relato da personagem à vivência da própria autora, narrada anos depois em O Acontecimento , no qual descreve sua experiência ao realizar um aborto clandestino entre 1963 e 1964.
Outra semelhança é o fato de Denise, apelidada de Ninise quando criança, ser filha de donos de um café-mercearia, assim como a escritora.
Entre reflexões sobre as dificuldades de se mudar para uma escola particular, lidar com o bullying e com o abismo social que separa sua família do novo ciclo de pessoas com quem passa a conviver no ginásio, a protagonista expõe, por meio dos brilhantes e característicos fluxos de consciência narrados por Ernaux, seu “pavor insano” em se parecer com os pais, que indica a tentativa envergonhada de romper com tudo aquilo que a associe à sua origem.
Continua após a publicidade Apesar de ficcional, muitos elementos da obra evocam histórias e sensações da própria escritora ao longo da vida, como atestam os clássicos Os Anos , O Lugar e A vergonha .
“Não se trata de contar a história da minha vida nem de confessar os meus segredos, mas de decifrar uma situação vivida, um acontecimento, uma relação amorosa, e, desta forma, desvelar algo que apenas a escrita pode fazer existir e passar, talvez, para outras consciências, outras memórias.
Quem poderia dizer que o amor, a dor e o luto, a vergonha, não são universais? “, refletiu a veterana em seu discurso após vencer a maior honraria da literatura, anos atrás.
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