Com chanchada política, Flávio menospreza Brasil e apoiadores
Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha
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A fuga de Flávio Bolsonaro para Miami se já era patética, tornou-se uma chanchada política com a carta que o candidato derrotado divulgou. No documento golpista, inicialmente acompanhado do antigo brasão do Brasil, vigente entre 1889 e 1968, o fujão se autoproclama "o verdadeiro presidente do Brasil" e compara-se a Rui Barbosa. Parece viver num mundo paralelo, numa ficção bizarra e insustentável.
É tão estapafúrdia a tentativa de inventar uma perseguição política e uma fraude eleitoral que não vale a pena perder tempo com ela.
Valeria, contudo, ressaltar que o episódio tornou ainda mais constrangedor o apoio oferecido à candidatura por setores da Faria Lima e da chamada direita democrática. O candidato derrotado, enrolado com acusações criminais, foi coerente com a biografia da família ao preferir cuidar da própria pele e dar as costas aos seus quase 60 milhões de eleitores.
A deserção, com fantasias delirantes e agradecimentos a Javier Milei e Donald Trump, coroou de maneira desastrosa uma aposta que deveria provocar reflexão entre os segmentos do mercado financeiro e do conservadorismo liberal que se animaram com a candidatura.
Não faltavam informações sobre quem era o pulha em questão, herdeiro de um golpista saudosista da ditadura e alvo de dois importantes inquéritos no Supremo Tribunal Federal por corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
Incapazes de erigir candidaturas à Presidência e conquistar apoio popular para seus projetos, parcelas das elites econômicas e do espectro liberal acabam terceirizando sua representação a aventureiros e regimes autoritários.
Há motivos para questionar gastos excessivos, intervenções do Estado, desequilíbrios fiscais e iniciativas que comprometem a eficiência da economia. Ninguém é obrigado também a concordar com a ampliação dos mecanismos de proteção característicos do Estado de bem-estar.
O problema é outro: por que tamanha ignorância e incompetência política dos defensores dessa perspectiva, com tantos recursos econômicos à mão, influência política e capacidade de intervenção no debate público?
Talvez a resposta não esteja apenas na incapacidade de articulação e de comunicação acerca das propostas, mas também nas eventuais limitações de um projeto que frequentemente oferece à população sacrifícios imediatos em troca de benefícios futuros incertos.
A responsabilidade fiscal dificilmente constitui, por si só, uma promessa mobilizadora para quem enfrenta dificuldades cotidianas. Em vez de disputar a preferência com estratégias políticas capazes de gerir esses descompassos, prefere-se pegar carona em lideranças populistas cuja principal credencial é mobilizar o ressentimento contra a esquerda e a democracia liberal.
A história oferece exemplos dessa disposição. A experiência de Augusto Pinochet , no Chile, mostrou como uma agenda de liberalização econômica pôde conviver com uma ditadura brutal.
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