Garrafas de vinho: como formato, tamanho e cor viraram tradição
Há poucos objetos tão ligados à cultura do vinho quanto a garrafa. Sua forma, contudo, está longe de ser mero capricho estético. Ao longo dos séculos, o desenho do recipiente respondeu a necessidades práticas de transporte, armazenamento, envelhecimento e serviço, ao mesmo tempo em que acabou se transformando em uma espécie de assinatura geográfica. É por isso que, diante de uma garrafa de ombros pronunciados, pensamos imediatamente em Bordeaux; diante de uma garrafa de ombros suaves e arredondados, em Bourgogne.
A garrafa bordalesa consolidou-se entre os séculos XVIII e XIX, quando a utilização do vidro mais resistente permitiu que o vinho passasse a envelhecer por longos períodos dentro da própria garrafa. Seu corpo cilíndrico e, sobretudo, seus ombros altos e marcados apresentam uma vantagem funcional importante: durante a decantação de vinhos envelhecidos, os sedimentos ficam retidos na região dos ombros, em vez de alcançarem o gargalo e, consequentemente, o copo. Isso era particularmente útil para os tintos de Bordeaux, baseados em Cabernet Sauvignon e Merlot, capazes de produzir depósitos depois de muitos anos de guarda. A geometria cilíndrica também favorece o armazenamento horizontal e a organização das garrafas em caixas e adegas.
A garrafa borgonhesa, por sua vez, possui ombros baixos, largos e suavemente inclinados, formando uma silhueta mais arredondada. Sua origem remonta ao desenvolvimento das garrafas de vidro utilizadas na Borgonha e sua forma tornou-se associada sobretudo ao Pinot Noir e ao Chardonnay. Como esses vinhos tradicionalmente não apresentavam a mesma quantidade de sedimentos dos grandes tintos bordaleses, não havia a mesma necessidade de uma pronunciada barreira junto ao ombro. Há também uma explicação artesanal: a forma arredondada era mais simples de produzir pelos antigos vidreiros. Com o tempo, contudo, a forma deixou de ser apenas funcional e passou a representar a própria identidade da Borgonha.
Nenhum dos dois modelos é, portanto, intrinsecamente superior. A bordalesa é excelente para o armazenamento ordenado e para vinhos que podem formar depósitos, mas seus ombros tornam a lavagem e a manipulação um pouco menos simples. A borgonhesa é elegante, estável e particularmente adequada à identidade dos vinhos de Pinot Noir e Chardonnay, mas seus ombros inclinados oferecem menor capacidade de reter sedimentos durante a decantação. Hoje, naturalmente, grande parte dessas funções perdeu importância porque os vinhos são filtrados antes do engarrafamento. A forma, entretanto, permaneceu como tradição e como poderosa linguagem visual.
Se a forma identifica a origem, o volume conta outra história. A garrafa de 750 mililitros tornou-se o padrão internacional, mas não nasceu de uma decisão puramente enológica. Sua consolidação esteve relacionada ao comércio entre França e Inglaterra, quando era necessário converter o sistema métrico francês para o galão imperial britânico. Um barril de 225 litros correspondia convenientemente a 300 garrafas de 750 mililitros, ou aproximadamente 50 galões; seis garrafas correspondiam, por aproximação comercial, a um galão imperial.
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