Animação e fábula de Daniel Nolasco abrem a competição do Festival de Brasília
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Apesar do título e dos temas que aborda, "Pequenas Tragédias", de Daniel Nolasco , é um filme muito bem-humorado sobre a vida queer em Catalão, no interior de Goiás .
"Ana, en Passant", de Fernanda Salgado, por sua vez, é uma animação delicada sobre uma jovem nascida em Paris, filha de brasileiros, que viaja a Belo Horizonte após a morte da avó e, a partir de uma carta deixada por ela, tenta reconstituir seu passado.
Os dois longas abriram neste fim de semana a competição nacional do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro . Em "Pequenas Tragédias", Nolasco parte de uma experiência pessoal para construir um filme que mistura um quase documentário e fabulação e olha para uma geração de pessoas LGBTQIA+ que deixou sua cidade natal, morreu ou desapareceu da vida pública do município.
A ideia surgiu quando o diretor voltou a Catalão, em 2019, para filmar "Vento Seco" . Nolasco havia saído dali em 2010 para estudar cinema na Universidade Federal Fluminense, no Rio, e desde então retornara apenas por períodos curtos. Ao passar quatro meses na cidade, descobriu de uma vez as mudanças ocorridas durante sua ausência.
"Eu falei ‘vou estar lá, vou reencontrar todo mundo’. E foi aí que não, não vou reencontrar todo mundo", disse Nolasco, em debate sobre o filme na manhã desta segunda-feira. Amigos haviam se mudado para Goiânia, Brasília e São Paulo. Outros haviam morrido. Ao mesmo tempo, segundo ele, a vida LGBT que conhecera na juventude, com festas, parada e bares, praticamente desaparecera.
O projeto nasceu como um documentário convencional. A pesquisa, porém, levou o diretor a abandonar esse formato. "Eu vi que precisava fabular. Não dava para contar aquela história por meio da linguagem documental sem ter algum tipo de fabulação."
A mudança também respondeu a uma questão que Nolasco diz carregar há algum tempo —como filmar a violência contra pessoas LGBT sem reproduzi-la de maneira didática. Em vez de mostrar agressões para provar que elas existem, decidiu construir imagens que produzissem prazer para o público queer e, ao mesmo tempo, pudessem incomodar um espectador homofóbico.
Daí vêm o erotismo, a exposição dos corpos e o humor que atravessa "Pequenas Tragédias", mesmo quando o filme trata de morte e violência.
Quando voltou para rodar "Pequenas Tragédias", a repercussão anterior ainda pesava. A produção chegou a apresentar o projeto em alguns lugares sem mencionar seu nome, por não saber se a associação com o diretor abriria ou fecharia portas.
Um episódio no supermercado de seus primos acabou eliminando suas dúvidas. Nolasco havia trabalhado ali dos 13 aos 26 anos e já filmara no estabelecimento em "Vento Seco". Ao tentar voltar para uma nova gravação, encontrou resistência. A mensagem recebida pela produção acabou incorporada ao próprio filme.
"Eu trabalhei 13 anos nesse supermercado e agora vão falar que eu não posso gravar lá dentro para contar uma história que aconteceu comigo lá?", disse. "O ódio que eu fiquei desse episódio tirou todas as minhas dúvidas, todos os meus receios.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www1.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha · Ilustrada.