A indústria do álcool pode estar à frente da prevenção?
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Psicóloga e doutora pela Unifesp, é autora de 'Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis' (ed. Contexto); foi consultora da OMS e da Opas e professora da Universidade Columbia (EUA)
Como é que, em pleno 2026, ainda pode parecer uma boa ideia colocar a indústria do álcool dentro de uma política pública para reduzir o consumo de bebidas ? Não é uma pergunta hipotética. Basta olhar para dois programas brasileiros: o Modera SP , da Prefeitura de São Paulo , e o novo Modera Brasil , lançado em âmbito nacional.
O argumento para programas como o Modera é conhecido entre os especialistas da área de bebidas alcoólicas: o chamado "screening, brief intervention and referral to treatment" ( SBIRT , ou "triagem, intervenção breve e encaminhamento para tratamento"). A estratégia identifica pessoas que apresentam consumo de risco, frequentemente por instrumentos como o Audit (questionário criado pela Organização Mundial da Saúde ), e oferece uma intervenção e/ou encaminhamento para tratamento quando necessário.
A OMS inclui o SBIRT entre as cinco áreas de ação do Safer, seu principal programa para reduzir os danos relacionados ao álcool.
Mas aqui existe uma distinção fundamental. A recomendação da OMS para uma estratégia de saúde pública não é uma recomendação para que a indústria do álcool participe da formulação ou da implementação dessa política. Pelo contrário: a própria OMS afirma que existe um evidente conflito de interesses entre os objetivos da indústria —que dependem do aumento das vendas de álcool e da remuneração de seus acionistas— e os objetivos dos governos, que deveriam proteger a população e reduzir os danos à saúde.
Segundo a organização (e décadas de literatura científica), a participação da indústria de produtos nocivos (incluindo a de álcool e a de tabaco, por exemplo) tem conseguido enfraquecer, atrasar ou desvirtuar políticas públicas. Entre as estratégias identificadas estão a interferência na formulação de políticas e a cooptação de pesquisadores e universidades para colaborar com organizações financiadas pela indústria.
É fácil entender o que a indústria de bebidas alcoólicas pode ganhar com uma parceria desse tipo. Em termos de relações públicas e construção de imagem ("somos parte da solução"), é difícil imaginar um ativo mais valioso: uma empresa que produz e comercializa um produto associado a acidentes, mortes, doenças, dependência e violência passa também a aparecer como parceira de governos na prevenção desses mesmos problemas. E ainda pode associar sua marca a universidades, pesquisadores e estratégias respaldadas pela OMS. Mas o que a saúde pública ganha?
Essa é a pergunta que deveria ser feita antes de qualquer parceria desse tipo. Como o conflito de interesses foi avaliado? Que mecanismos garantem a independência da política? E qual é a evidência de que a participação da indústria produz algum benefício adicional para a população? Em ano de eleição, é importante destacar que não se trata de uma questão de direita, esquerda ou centro.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.