A diferença entre direita e esquerda
Escritor, é autor de 'Feliz Ano Velho', 'Ainda Estou Aqui' e 'O Novo Agora'
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Na semana da eleição, um grupo de 50 estudantes do segundo ano do ensino médio, de cinco escolas paulistanas, queria que eu explicasse o que era direita e esquerda. Votariam pela primeira vez.
Formaram um círculo de cadeiras de plástico brancas no salão de festas do meu condomínio. Sei que aqui tem alunos de direita, ou que a família é de direita, e respeito a convicção de cada um de vocês, comecei.
Isso é democracia. Aliás, se fosse na ditadura militar , esta reunião jamais seria possível. O zelador ou o síndico chamaria a polícia, seríamos presos e talvez torturados, contei.
O mundo está polarizado há séculos. Passamos pelo Absolutismo, Iluminismo, liberalismo, socialismo, anarquismo, fascismo... E existem esquerdas, direitas em paradoxos.
Um dos países mais sindicalizados de todos e com maior taxação sobre grandes fortunas é o mais capitalista de todos: Estados Unidos.
Grosso modo, a esquerda tende a enxergar a desigualdade como um problema político que pode ser enfrentado pela ação do Estado. A direita tende a desconfiar dessa intervenção e a dar mais peso à propriedade, à responsabilidade individual e ao mercado. Ela prefere um Estado mínimo e que as pessoas se responsabilizem pela sua segurança (condomínios fechados, carros blindados, seguranças), saúde (planos de saúde) e educação (escolas privadas).
O outro grupo quer taxar grandes heranças, dividir grandes propriedades, criar um Estado de bem-estar social. E para isso cobra impostos altos. A riqueza de uma nação muda de mãos toda hora. Fiz o gesto do meme "67"; aliás, digite "67" no Google e olhe que bizarro.
O tudo pertence a todos, mas nem todos concordam com o todo repartido de maneira igual. O tudo não pode ser igual a todos, defendem. Alguns têm que ter mais, merecem mais, outros, menos. E alguns, nada. São os párias sociais, merecem o farelo.
Haverá aquele ou aqueles que acreditam que merecem uma parte maior. Então alguém sairá perdendo. Depende da mobilização de quem terá pedaços maiores, para a garantia da maior fatia. Costumam fazer alianças para que outros tenham partes grandes também.
Armas podem ser úteis nesse rearranjo culinário. Fatias de bolo compram armas e quem as manipulam. O ministro Delfim Netto, que foi o braço civil da nossa ditadura militar, defendia que, se o bolo crescesse, todos ganhariam.
Ele tinha apoio das Forças Armadas, da elite e até dos EUA. Mas seu plano era um blefe e só aumentou a desigualdade no Brasil.
Assim somos nós. Talvez essas formas de organizar o poder sejam tão antigas quanto as nossas vidas em grupo. Poderíamos confiar as decisões aos mais velhos, ou reis, xeiques, imperadores. Mas em qual deles? E quando morressem?
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