'Nunca descartaria' possível interferência de Trump nas eleições brasileiras, diz autor do perfil de Moraes na New Yorker
Poucos jornalistas americanos conhecem a América Latina como Jon Lee Anderson.
Repórter da revista The New Yorker desde 1998, biógrafo de Che Guevara e autor de perfis de Hugo Chávez, Fidel Castro e Gabriel García Márquez, ele reporta do continente desde os anos 1980, com um método que virou marca: mergulhar por meses no terreno e conviver de perto com quem retrata.
Em abril de 2025, Anderson publicou na New Yorker um extenso perfil de Alexandre de Moraes , o ministro que conduziu o julgamento que levou à condenação de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
O jornalista afirma que "não descartaria" a possibilidade de uma interferência do governo americano na eleição brasileira e que o Brasil é uma "grande peça" dentro dos planos de Donald Trump para hegemonia regional.
"Há razões concretas para esse interesse dos EUA [no Brasil]. Uma é a disputa com a China: especialmente desde a guerra tarifária, Lula foi se aproximar de Pequim, e um governo aliado no Brasil seria, para Washington, tirar mais uma peça chinesa do tabuleiro. A outra é a segurança nacional. Se o próximo presidente do Brasil permitisse que forças paramilitares americanas operassem na Amazônia contra os narcotraficantes, como já ocorre hoje com o presidente colombiano e o peruano, isso seria enorme para os EUA."
A entrevista, feita por vídeo na quarta-feira (16/9), um dia após uma das sessões mais tumultuadas da história recente do Supremo Tribunal Federal, sobre abrir ou não uma investigação contra o próprio Moraes, ganha peso particular. Anderson conversou com a BBC News Brasil de sua casa na Inglaterra.
O jornalista americano evita cravar um juízo sobre Moraes. Ele diz achar cedo demais para se chegar a conclusões sobre as alegações que foram feitas contra o ministro do STF — de uma suposta relação próxima com banqueiro Daniel Vorcaro.
Anderson vê Moraes como uma pessoa que está "do lado certo da história", mas lembra que, quando estava fazendo o perfil do ministro, ouviu de muitas pessoas advertências sobre o fato de Moraes ser muito linha-dura.
E compara Moraes a Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York que já foi idolatrado por muitos, mas hoje em dia é amplamente criticado.
"Não seria a primeira vez que uma figura icônica, até um ídolo social, em qualquer um dos nossos países, se revela com pés de barro", diz Anderson.
Confira abaixo trechos da primeira parte da entrevista com Anderson. Uma segunda parte desta entrevista será publicada pela BBC News Brasil nos próximos dias.
BBC News Brasil - No julgamento de terça-feira, não houve definição sobre investigar ou não o Moraes. Você escreveu um grande perfil de Alexandre de Moraes para a New Yorker, retratando-o como peça-chave para a democracia no Brasil. Depois do que está acontecendo agora — o caso Vorcaro, o contrato da mulher dele — como você o enxerga agora?
Jon Lee Anderson - É uma boa pergunta. Ainda estou formando a minha opinião, para ser honesto. Espero voltar ao Brasil em breve, talvez para o segundo turno, o turno decisivo, e vou investigar mais de perto todas essas coisas.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.terra.com.br — o conteúdo pertence a Terra.